Revista Coletivo Cine-Fórum | v. 4 | n. 1 | p. 1-13 | 2026 | ISSN: 2966-0513  
Artigo | Temática Livre  
Submetido em: 31/10/2025 Aceito em: 05/01/2026  
GUIDO GOZZANO E O OLHAR CREPUSCULAR: UMA  
Beatriz de Paula Morgado  
Monteiro  
Mestranda em Literatura  
Italiana no Programa de Pós-  
Graduação em Letras  
INTRODUÇÃO À POESIA GOZZANIANA  
RESUMO  
Neolatinas (PPGLEN) da  
Universidade Federal do Rio  
de Janeiro (UFRJ), bolsista  
CAPES e sócia da Associação  
Brasileira de Professores de  
Italiano (ABPI).  
O presente artigo visa apresentar o poeta italiano Guido Gozzano (1883-1916), situando o leitor  
em relação ao período histórico, cultural e literário em que viveu e produziu, com o objetivo de  
facilitar a compreensão das mensagens contidas em sua poesia, a qual oferece um novo olhar  
sobre o complexo século XX. Para tanto, o trabalho inicia-se com uma introdução ao Novecentos  
e ao movimento literário conhecido como Crepuscolarismo, explicitando as características  
fundamentais e como o estilo refletiu as transformações da época, até chegar a Gozzano. Nascido  
em Turim, o poeta foi um admirador e ávido leitor de figuras influentes da literatura italiana,  
como Dante Alighieri (1265-1321) e Gabriele D’Annunzio (1863-1938). Nos primeiros  
decênios, passou a rejeitar o estetismo dannunziano, sendo anunciado como o representante da  
estética crepuscular após a publicação dos livros La via del rifugio (1907) e I Colloqui (1911),  
que evidenciam sua habilidade em mesclar a ironia e melancolia por meio da linguagem  
coloquial e da métrica tradicional, abordando temas como a inadequação e a doença, os quais se  
originaram a partir da segunda metade do século XIX com os efeitos da pós-Unificação. Após  
esse recorte fundamental, e considerando a necessidade de trazer à luz Guido Gozzano para  
ressaltar a importância de sua obra para os estudos de literatura italiana no Brasil, realizar-se-á  
a análise da ilustre poesia Alle soglie (1911) com reflexões obtidas a partir de revisões sobre a  
temática da tradução, atividade que auxiliou na resolução da primeira tarefa, favorecendo o  
desenvolvimento de pesquisas na área.  
Sonia Cristina Reis  
Doutora em Letras Neolatinas  
pela Universidade Federal do  
Rio de Janeiro (UFRJ).  
Docente permanente do  
Programa de Pós-Graduação  
em Letras Neolatinas da  
UFRJ.  
Palavras-chave: Guido Gozzano. Alle soglie. Poesia.  
Priscila Nogueria da Rocha  
Doutora em Letras Neolatinas  
pela Universidade Federal do  
Rio de Janeiro (UFRJ).  
Professora colaboradora e  
pesquisadora da UFRJ.  
GUIDO GOZZANO AND THE CREPUSCULAR GAZE: AN  
INTRODUCTION TO GOZZANIAN POETRY  
ABSTRACT  
This article aims to introduce the Italian poet Guido Gozzano (1883-1916), contextualizing the  
reader regarding the historical, cultural, and literary period that he lived and wrote in, to facilitate  
the apprehension of the messages contained in his poetry, which offers a new perspective on the  
complex 20th century. In light of this objective, the work begins with an introduction to the  
Novecento and the literary movement labeled as Crepuscularism, illustrating its fundamental  
characteristics and how it reflected the diversity of the time, before moving on to Gozzano. Born  
in Turin, the poet was an admirer and avid reader of influential figures in Italian literature, such  
as Dante Alighieri (1265-1321) and Gabriele D'Annunzio (1863-1938). In the first decades, he  
eventually started to distance himself from the refined dannunziano aesthetic, becoming the  
representative of crepuscular aesthetics after the publication of the books La via del rifugio  
(1907) and I Colloqui (1911), which highlight his ability to blend irony and melancholy through  
colloquial language and traditional meter, addressing themes such as inadequacy and illness,  
which originated in the second half of the 19th century with the effects of post-unification. After  
presenting this fundamental overview, and considering the importance of bringing Guido  
Gozzano to light to emphasize the importance of his work for Italian literature studies in Brazil,  
an analysis of the illustrious poem Alle soglie (1911) will be carried out with reflections obtained  
from reviews on the theme of translation, an activity that helped in the resolution of the first  
task, favoring the development of research in the area.  
Este artigo passou por avaliação por  
pares cega e software anti-plágio.  
Keywords: Guido Gozzano. Alle soglie. Poetry.  
LICENÇA ATRIBUIÇÃO NÃO  
COMERCIAL 4.0 INTERNACIONAL  
CREATIVE COMMONS CC BY-NC  
DOI: doi.org/10.63418/sagta125  
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INTRODUÇÃO  
Classificado como um período de transformações na literatura italiana, o  
Novecentos produziu uma série de movimentos, estéticas e correntes com estilos,  
formas e temas diversos. No meio de várias que surgiram, despontou no pálido  
horizonte do primeiro decênio do século XX a estética chamada Crepuscolarismo em  
oposição aos ideais cultivados ao longo da tradição, sobretudo pelo Decadentismo.  
Com base nesses fatos, os poetas crepusculares proporcionaram uma visão  
contrária sobre a idealização do homem e do poeta, humanizando-os e exteriorizando  
os sentimentos que ecoavam à época, como o desencanto. Inserido nessa estética,  
destaca-se Guido Gozzano (1883-1916), autor de fábulas, prosas e poesias reunidas nos  
volumes La via del rifugio (1907) e I Colloqui (1911), o último livro a ser publicado em  
vida e também o mais renomado.  
Assim, julgando importante introduzir esse prisma ainda incipiente nos  
estudos literários da italianística no Brasil, esse trabalho foi organizado com o intuito  
de esclarecer o contexto que favoreceu o desenvolvimento do Crepuscolarismo, quem  
foi Gozzano e o que sua poesia pode revelar aos leitores que consideram a  
possibilidade de estudá-lo hoje.  
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA  
O movimento crepuscular nasce da interpretação da poesia em relação à  
situação histórica da época, tendo sido alcunhado pela primeira vez por Giuseppe  
Antonio Borgese (1882-1952), que pensa na estética como um retrato do declínio da  
literatura. Para compreender esse momento, a leitura dos críticos Mario Santoro (1983),  
Giulio Ferroni (2007) e Alberto Asor Rosa (2009) foi basilar no exame da conjunção de  
fatores que consolidaram o espírito particularmente esmorecido.  
Para introduzir Guido Gozzano (1883-1916) e abordar o plano histórico-social  
que fomentou sua escrita, as investigações mais recentes elaboradas pelas  
pesquisadoras Niva Lorenzini (1992), Laura Feltrin (2018) e Daniela Crăciun (2021)  
reúnem informações cruciais, além de percepções e novos olhares para a temática.  
Na parte dedicada à tradução, foi realizada uma revisão da literatura do famoso  
ensaio A tarefa-renúncia do tradutor, de Walter Benjamin (1923), traduzido por Susana  
Kampff Lages (2002), o qual engloba uma série de reflexões sobre a questão da  
tradução.  
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O compilado de procedimentos técnicos organizado por Heloísa Gonçalves  
Barbosa (2020) auxilia na identificação do método mais adequado em cada etapa do  
processo de tradução. Esse plano teórico encadeia contribuições de diversos autores,  
entre eles Francis Aubert (1987), que aborda a tradução palavra por palavra, ou literal,  
vertente utilizada neste trabalho. Ademais, o pesquisador Paulo Henriques Britto  
(2012) descreve o processo de tradução da poesia, providenciando exemplos e  
observações que dialogam com pontos importantes, como forma, rima e sentido.  
OS ECOS DA TRANSFORMAÇÃO NO NOVECENTO: O CREPÚSCULO DO  
SÉCULO NA ITÁLIA  
Conhecido pela profusão de movimentos literários e sensibilidades poéticas  
distintas, o século XX testemunhou uma profunda necessidade de renovação da  
tradição literária que manifestou-se nos jovens da geração, os quais buscavam  
construir uma identidade capaz de romper com a cultura oitocentista através de novas  
formas de expressão mais alinhadas à cultura europeia. Nesse sentido, os ideais  
consagrados por poetas célebres como Giovanni Pascoli (1855-1912) e Gabriele  
D’Annunzio (1863-1938), cujas obras influenciaram e moldaram inúmeras estéticas,  
não escaparam à tendência de mudança que se verificou no limiar do período, mas  
continuaram sendo prestigiados.  
A respeito da ruptura que deu origem às principais tendências da época, pode  
ser mencionado o declínio de normas e costumes herdados do Positivismo, sobretudo  
quanto à concepção da natureza do indivíduo fundada na observação prática do  
mundo. Paralelo a esse movimento filosófico, influente nas esferas científicas, políticas  
e culturais, a Itália encontrava-se imersa nos efeitos do pós-Unificação (1861), atenta  
na construção da própria identidade nacional e nos ideais de progresso, apesar dos  
danos e da cisão da nova nação.  
A partir da ilusória visão de progresso oriunda do processo de unificação,  
derivou-se no indivíduo uma sensação de descrença e inadequação. Por conseguinte,  
em oposição ao pensamento nacionalista que glorificava o mito do homem viril e ativo  
na ascensão da sociedade, disposto a atos de sacrifício e atitudes heroicas pelo bem da  
nação, ergueu-se uma figura antagônica: o homem burguês, moderno e individualista,  
julgado fraco e decadente.  
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Essa divergência decorre do fato de que “a crise era muito mais radical e  
profunda… O homem se sente privado de qualquer apoio, de qualquer garantia,  
certeza, diante de uma realidade que se mostrava extremamente fluida, complexa,  
indescritível e evasiva.”1 (Santoro, 1983, p. 166). Nessa lógica, os poetas recorreram a  
valores que resgataram a naturalidade, a pluralidade e a fragilidade da existência  
humana, distanciando-se do ideal de soldado que exortou o processo que culminaria  
no fascismo.  
Devido a essa dissonância e à visão de esgotamento da tradição, novas  
experimentações despontaram no horizonte literário, rompendo com os esquemas  
tradicionais da arte e da literatura, do jeito que fizeram os Vociani e os poetas do  
Futurismo, que se afastaram da visão grandiosa da literatura. Em consonância com  
essa compreensão renovada da literatura, posiciona-se o Crepuscolarismo, estética  
preponderantemente atrelada a Guido Gozzano.  
O CREPUSCOLARISMO E A POESIA DE GUIDO GOZZANO  
Neste tópico, procura-se explicar de modo sucinto o Crepuscolarismo. Embora  
não tenha sido considerado um estilo poético significativo à época, o movimento  
surgiu de uma inadequação que contestava a cultura do passado, indicando uma  
perspectiva diferente da Itália após o Ressurgimento.  
Segundo o crítico Alberto Asor Rosa (2009), a poesia crepuscular pode ser  
considerada uma experiência transitória que procurou reunir poetas distintos sob um  
mesmo estereótipo, não constituindo um movimento com um programa definido. Para  
criar esse rótulo, os críticos basearam-se tanto no vazio existencial quanto na maneira  
desencantada com que eles enxergavam a vida e a relação com os mitos dannunzianos,  
além da fragmentação do indivíduo moderno, mirando de forma nostálgica e  
melancólica um passado que não viveram.  
Por conta desse olhar moderno, Giuseppe Antonio Borgese (1882-1952)  
concebeu o nome Crepuscolarismo ao escrever um artigo para o jornal La Stampa, em  
1910, aludindo ao período de transição entre o dia e noite com o objetivo de  
caracterizar esse estilo particular com um tom soturno e ilustrá-lo com a imagem pela  
1
No original: “la crisi era molto più radicali e profonda [...] L’uomo si sente privato di ogni sostegno, di ogni  
garanzia, di ogni certezza, di fronte ad una realtà che si rivelava estremamente fluida, complessa, inafferrabile e  
sfuggente.”  
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ideia de declínio após uma era gloriosa da literatura, no qual a vida era vista como  
uma obra de arte a ser imitada.  
Inserida nessa fase, a poesia crepuscular não apenas nega a tradição, mas  
também reflete sobre a condição de mal-estar que atravessava o indivíduo nesse  
ínterim, denunciando os problemas do cotidiano e a idealização do poeta vate2.  
Rejeitando a artificialidade vinculada ao culto à beleza, essa função começou a ser  
tratada como um fardo, carregado de culpa e vergonha, expresso por Sergio Corazzini  
(1886-1907) em Desolazione del povero poeta sentimentale (1906): “Por que você me chama:  
poeta? Eu não sou poeta” 3.  
No entanto, ao examinar a questão identitária mais profundamente, torna-se  
possível observar que o problema da língua também cumpre um papel relevante nesse  
debate, porquanto “são os crepusculares a iniciar essa prática de crise da linguagem  
em relação à realidade, dado que o confronto eu-mundo não pode ser mais  
representado de maneira naturalista.”4 (Crăciun, 2021, p. 72). Em outras palavras, nem  
a realidade nem o indivíduo podiam ser descritos mediante o uso de uma língua  
enobrecida, ornada por palavras cristalizadas preconizadas pela tradição, tampouco  
pela objetividade do Naturalismo.  
Neste artigo, a poesia do turinense, caracterizada por imagens simbólicas e  
temáticas simples ligadas ao cotidiano e à inadequação do homem, constitui o objeto  
de análise. Considerando a moderada visibilidade em vida, Gozzano é reputado um  
dos principais expoentes do Crepuscolarismo (Asor Rosa: 2009; Feltrin: 2018) pelo seu  
estilo e pela abordagem direta e irônica das reflexões sobre a crise do indivíduo que  
confere originalidade às suas obras e ao estilo.  
Suas produções poéticas são frequentemente resumidas a La via del rifugio (1907)  
e I Colloqui (1911), sendo a última a mais estudada e tônica deste escrito. De acordo  
com o poeta:  
A coletânea reunirá o menos pior das minhas líricas editadas e inéditas  
e será como uma síntese da minha primeira juventude, um reflexo  
pálido do meu drama interior. As poesias embora independentes —  
2 O conceito de vate era uma forma de descrever e elevar os poetas ao nível profético, como um guia espiritual que  
inspira seus leitores através da poesia.  
3 No original: “Perché tu mi dici: poeta? Io non sono un poeta.” (v. 1-2)  
4
No original: “Sono i crepuscolari ad avviare questa pratica della messa in crisi del linguaggio in relazione alla  
realtà dato che il rapporto io-mondo non può essere ormai rappresentato in un modo naturalistico.”  
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serão unidas por um sutil fio cíclico e divididas em três partes […] As  
poesias que estou juntando não são obras minhas, mas da minha vida,  
da minha adolescência e da minha juventude. (Gozzano, 1910 apud  
Lorenzini, 1992).  
Em virtude desse critério, Gozzano cria uma voz narrativa intimista que  
aproxima o leitor, organizando os ciclos em colóquios, conforme revela o título.  
Consequentemente, as poesias podem ser interpretadas como manifestações do  
próprio autor em determinados momentos, à luz de sua explicação sobre a concepção  
da coletânea.  
Ao que tudo indica, as três fases da obra intercalam recordações passadas,  
mesclando-as com cenários imaginários que integram o eu lírico em meio às  
banalidades do mundo burguês, marcado por situações e objetos domésticos  
antiquados. Outrossim, a coletânea oferece um panorama das inquietações do poeta,  
tais como a inadequação, o mal-estar do século e a doença, temas recorrentes na  
literatura do Novecentos.  
A análise da poesia gozzaniana representa um ponto crucial desta pesquisa, mas  
a tradução demonstra-se igualmente relevante, uma vez que possibilita a compreensão  
de futuros leitores. Levando em conta o número reduzido de versões em língua  
portuguesa e o interesse em promover estudos sobre Guido Gozzano, comentar-se-ão  
brevemente algumas características verificadas na tradução da poesia Alle soglie. No  
próximo tópico, tecem-se comentários alinhados à revisão da literatura sobre a  
tradução, abordando também os desafios enfrentados na execução dessa tarefa, tanto  
para leitores familiarizados com a língua quanto para aqueles que não a dominam.  
O PROCESSO DE TRADUÇÃO DA POESIA GOZZANIANA  
Pensar a tradução implica refletir sobre a relação entre as línguas, evidenciando  
as semelhanças que as aproximam e as diferenças que as tornam tão singulares. Esse  
processo se mostra enriquecedor para todos que se interessam pelas fronteiras  
culturais e linguísticas, possibilitando assimilar novos saberes por meio de diferentes  
formas de expressão e estilos, seja na posição de leitor ou de tradutor.  
5 No original: “La raccolta adunerà il men peggio delle mie liriche edite e inedite e sarà come una sintesa della mia  
prima giovinezza, un riflesso pallido del mio dramma interiore. Le poesia benché indipendenti saranno unite  
da un sottile filo ciclico e divise in tre parti [. . . ] Le poesie che sto adunando non sono opera mia, ma della mia vita,  
della mia adolescenza e della mia giovinezza.”  
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No contexto italiano, o poeta Guido Gozzano não é tão analisado e conhecido  
pelos estudiosos no Brasil quanto outros autores, como Gabriele D’Annunzio. Por isso,  
torna-se indispensável difundir seu repertório poético, a fim de revelar uma  
perspectiva menos gloriosa e mais intimista da Itália no século XX.  
Segundo Heloísa Gonçalves Barbosa (2020), as traduções são instrumentos que  
viabilizam a leitura de obras estrangeiras e, sobretudo, o acesso a culturas distantes da  
realidade de seus leitores, especialmente quando o interesse nelas se torna  
inquestionável. Nesse sentido, a missão do tradutor consiste em aproximá-los desse  
objetivo, recorrendo a estratégias e realizando alterações necessárias, porém discretas,  
de modo a preservar a originalidade.  
Apesar da objetividade em seu conceito, a transposição da poesia difere da  
prosa em aspectos que são fundamentais para a primeira, como forma, rima,  
significados e distribuição de versos. Cabe, portanto, “ao tradutor determinar, para  
cada poema, quais são os elementos mais relevantes, que, portanto, devem ser  
necessariamente recriados na tradução, e quais são menos importantes e podem ser  
sacrificados” (Britto, 2012, p. 120). Para tanto, é crucial levar em consideração as  
escolhas e intenções dispostas conscientemente pelo poeta na concepção da obra,  
mantendo-se fiel a ela, não obstante as dificuldades verificadas ao longo do  
procedimento, nesse caso, a contextualização do Novecentos e os traços irônicos.  
Desse modo, é essencial contextualizar a mensagem implícita na poesia antes  
dos pormenores, sendo esse o motivo pelo qual será apresentado um recorte sucinto  
da poesia para introduzir o tema ao leitor e despertar uma reflexão crítica sobre o  
período de transições na Itália. A cena desenvolve-se inteiramente em um hospital,  
enquanto o eu lírico é submetido a um exame de rotina para monitorar a doença que  
o acomete, observando o cenário e descrevendo, em tom irônico, tudo ao seu redor,  
desde as recomendações médicas e objetos que utilizam até o desconforto para saber  
o inevitável: ele vai morrer.  
Assim, a aceitação da morte é o tema central dessa poesia, que retrata um dos  
temas correntes do século XX. Além disso, o título escolhido por Gozzano também  
representa o sentimento de estar “à margem” de um século à beira da finitude, sem  
traços de glória, mas com serenidade em meio ao caos e um sorriso amarelo.  
Embora a tradução implique perdas inevitáveis, o objetivo é reproduzir, sempre  
que possível, os aspectos mais relevantes para se aproximar do original. Em geral, o  
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significado do poema é privilegiado na escala de prioridades. Apesar de ser realmente  
fundamental, é impossível desconsiderar os elementos formais, atentando-se à  
intencionalidade do poeta na escolha de certas palavras e à ordem em que elas  
aparecem na construção sintática, mesmo quando as escolhas de Gozzano parecem  
simples em relação aos temas e ao vocabulário. Felizmente, há semelhança entre as  
línguas italiana e portuguesa nas estruturas lexicais e sintáticas, o que facilita o  
processo de tradução, principalmente por pertencerem à mesma família linguística.  
Nessa direção, Walter Benjamin (2008) explica que a tradução manifesta o  
parentesco histórico que existe entre as línguas, sendo assim correto dizer que elas não  
são estranhas umas às outras e passíveis de serem traduzidas uma a uma, sem  
necessariamente pressupor semelhança. Na concepção do filósofo, isso ocorre porque  
no interior de cada uma delas existe algo próximo a ideia “pura linguagem”, ou seja,  
a essência comum entre elas, uma afinidade meta-histórica “tomada como um todo,  
uma só e a mesma coisa é designada; algo que, no entanto, não pode ser alcançado por  
nenhuma delas, isoladamente, mas somente na totalidade de suas intenções  
reciprocamente complementares” (p. 72).  
Essa noção contribui perfeitamente para a problemática da tradução,  
desmistificando a fidelidade. Para Benjamin, esse conceito é contraditório, porque  
raramente o sentido pleno do original é reproduzido, e frequentemente não se atinge  
o desejado, isto é, o indescritível, que é obtido no contato entre as línguas.  
Por essa razão, “a tradução que pretendesse comunicar algo não poderia  
comunicar nada que não fosse comunicação” (p. 66), visto que essa medida não  
considera a pura língua, que resulta da harmonia nos modos de designar aquilo que  
permanece oculto. Como cacos de um vaso, o tradutor deve captar o modo de designar  
do original pela sua própria língua, logo fazendo com que se reconheça os fragmentos  
dessa conexão supra-histórica, tal qual os cacos que pertencem ao vaso, sendo  
transparente, pois, a literalidade não poderia reproduzir o sentido já que “a relação do  
conteúdo com a língua é completamente diversa no original e na tradução.” (p. 73)  
O raciocínio benjaminiano sobre o parentesco histórico permite também  
compreender o movimento cíclico das palavras, atestando novamente a  
impossibilidade da tradução perfeita, já que elas se modificam ou caem em completo  
desuso ao longo dos anos. É o que sucedeu, por exemplo, com as formas “sovente”,  
“ché” e “m’accora”, que não têm uma correspondência direta com o português, tendo  
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sido utilizadas em séculos passados por poetas como Dante Alighieri (1265-1321),  
diferentemente de “mondo”, “Morte” e “sereno”, que, apesar de tão antigas,  
perduram.  
Aplicando essas informações à ironia presente na poesia, parte-se da frase que  
se repete: “Sorriria até, se depois não precisasse pagar eles…”6, mas também da  
descrição dos médicos, “os velhos sabidos”7. Em relação à frase, adotou-se a estratégia  
da tradução palavra por palavra, ou seja, a direta. Segundo Francis Aubert (1987, p.  
15), citado por Barbosa (2020, p. 71), esse procedimento de tradução ocorre quando  
“determinado segmento textual (palavra, frase, oração) é expresso na LT, mantendo-  
se as mesmas categorias numa mesma ordem sintática, utilizando vocábulos cujo  
semanticismo seja (aproximativamente) idêntico dos vocábulos correspondentes no  
TLO [...]”, verificados ao longo de toda a poesia e para além dela.  
Assim, é viável conservar a estrutura da sentença, independentemente de ter  
sido escolhida a forma “pagar eles” em oposição a “pagá-los”, tendo como principal  
objetivo manter o tom coloquial promovido por Gozzano na concepção da obra e, ao  
mesmo tempo, assimilar o original buscando a língua portuguesa. Diante disso, a  
alteração realizada não modificou o sentido, pois a ironia continua presente, assim  
como a ordem sintática que não causa estranhamento no leitor e conserva os ecos  
originários. De acordo com Britto (2012, p. 145), a ideia de omitir um elemento  
importante do original é pior que alterá-lo.  
Se por um lado existe pequena alteração na oração, por outro lado, se preserva  
a construção com o adjetivo “sabido” para qualificar os médicos. Contudo, mesmo no  
português, essa palavra tem um duplo sentido, podendo ser uma escolha que enaltece  
ou ridiculariza a sabedoria deles, tratando-os como sabichões. Para permitir ao leitor  
sentir a intencionalidade do poeta que previamente teve contato com o estilo de  
Gozzano, considera-se natural a compreensão da ironia ao associar esse adjetivo à  
ilustre frase que salienta o sorriso amarelo do eu lírico, isto é, sem precisar torná-lo  
evidente, protegendo a originalidade da poesia gozzaniana.  
Dito isso, a tradução de Alle soglie foi organizada a partir de mecanismos  
espontâneos que ocorrem devido a uma afinidade meta-histórica entre o italiano e o  
português, de modo que não se recorre ao estrangeirismo. Ainda assim, é importante  
6 No original: “Sorriderei quasi, se dopo non bisognasse pagarli…”  
7 No original: “i vecchi saputi”  
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enfatizar que, mesmo existindo essa semelhança, frisa-se que a versão não substitui o  
original em quesito de “perfeição”.  
RESULTADOS E DISCUSSÃO  
Diante da análise empreendida para realizar o presente estudo, foi possível  
chegar a algumas constatações valiosas a respeito de Guido Gozzano e, naturalmente,  
do século XX, a começar pela crise apontada por Mario Santoro (1983), concernente à  
sensação de inquietação e da súbita transformação do mundo, além do próprio  
conceito de identidade.  
Primeiramente, é importante ressaltar o caráter elucidativo que a leitura dos  
poetas crepusculares proporciona aos leitores, ainda que sejam pouco debatidos no  
Brasil. Visto que a jovem geração de poetas estabeleceu uma perspectiva de renovação  
da literatura italiana, principalmente após o processo de Unificação, tal mudança pode  
ser justificada pela abordagem de temáticas incômodas, como a descrença, a doença e  
a inadequação, descritas por Alberto Asor Rosa (2009). Todavia, Gozzano sobressai-  
se, pois além do tom desiludido e melancólico típico dessa estética, recorria à ironia  
mediante uma linguagem simples, ocasionalmente inserindo vocabulário elevado, por  
exemplo, sovente.  
Situadas no limiar do século, as questões do mal-estar são recorrentes na poética  
gozzaniana, oferecendo um contraponto ao que a tradição literária enaltecia, como a  
exaltação do herói, da pátria e do culto à beleza, mascarando a realidade frustrante da  
sociedade. Portanto, Gozzano dedicou-se a explorar uma crise que mostrava a  
fragilidade do homem, salientada desde o título. O poeta ironiza as vicissitudes e,  
paralelamente, alivia-se delas através de ironia e lamentações.  
Nessa sequência de interpretação, desenvolvida a partir do nome atribuído à  
poesia, ressalta-se também a escolha do título do livro. A ideia de um livro concebido  
com base na premissa de aludir a colóquios, dispostos em versos, vide o nome I  
Colloqui, parece corroborar fortemente para o ponto de vista apresentado por Daniela  
Crăciun (2021), que afirma existir uma prática de crise da linguagem sendo  
manifestada, por meio da qual os poetas atrelados à estética buscavam distanciar-se  
da imagem de sublimação.  
No primeiro e no segundo tópico foi feito um retrospecto, cujo ponto de partida  
é a ambientação do século XX, ilustrada a partir de um panorama breve e conciso dos  
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fatos históricos, destacando a estética crepuscular, as temáticas e Guido Gozzano. Pela  
escassez de estudos sobre a poesia gozzaniana no Brasil, a questão da tradução se  
reafirmou como um instrumento necessário para tornar a figura e a obra do poeta  
conhecidas.  
Com isso em mente, o último tópico foi desenvolvido com base na revisão da  
literatura e na demonstração dos exemplos mais significativos. Inicialmente, comenta-  
se o potencial da tradução de unir as pessoas e fazer com que culturas e leituras sejam  
difundidas ao redor do mundo, pontuado por Heloísa Gonçalves Barbosa. Constatou-  
se que essa noção, ainda que pareça óbvia, na realidade conserva muito mais do que  
uma simples relação entre os códigos linguísticos de uma obra, mas sim a  
possibilidade de entender as particularidades de épocas que se encontram distantes  
no tempo ou espaço por meio das palavras  
Para além disso, Barbosa elaborou um estudo no qual estão agrupados alguns  
procedimentos que podem ser aplicados nas traduções. Dentre os diversos métodos  
citados, a tradução direta foi a que mais se encaixou dentro da análise, devido à  
possibilidade de traduzir palavra por palavra com segurança, exceto quando é uma  
escolha não fazê-lo, como sucedeu em “pagar a eles”, sem prejudicar a essência da  
poesia.  
A tradução da poesia se demonstra diferente da prosa pelos aspectos que as  
distinguem, como a forma e a rima. Dessa maneira, Paulo Henriques Britto (2012)  
salienta que o tradutor é responsável por determinar quais elementos do original são  
mais relevantes para a versão. Nesse sentido, ambos foram privilegiados, mas  
sobretudo o significado das palavras e a forma delas, considerando que muitos  
vocábulos são praticamente iguais e mudá-los seria contraproducente, dificultando o  
procedimento com o pressuposto de aperfeiçoar a poesia e, com isso, produzir uma  
leitura desrespeitosa ao original que não considera a intenção do poeta, o qual adota  
uma linguagem simples para se afastar da tradição literária.  
Essa afirmação é fortalecida quanto mais as línguas demonstram afinidade  
entre si, como descrito por Walter Benjamin (2008) em seu ensaio sobre a tarefa do  
tradutor. Devido à ligação histórica que existe entre o italiano e o português, por  
pertencerem à mesma família linguística, a traduzibilidade é evidente e se comprova  
no caso da poesia de Gozzano. Mas a semelhança é mais profunda, sendo demonstrada  
nas palavras, bem como na estrutura sintática, exceto nos casos nos quais o poeta  
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resgata termos fora de uso que não possuem correspondência direta na língua do  
tradutor, como ocorreu com o verbo “m’accora”, cujos sinônimos “m’angoscia” e  
“m’affligge” são, de fato, análogos ao português “me angustia” e “me aflige”.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O século XX é considerado uma época agitada que encontra na poesia de Guido  
Gozzano a manifestação da desilusão e inquietação do indivíduo. Sua poesia intimista  
é marcada pelo tom melancólico que, em contato com a ironia particularmente  
gozzaniana, produz um estilo diferente, oferecendo um horizonte distinto em  
comparação às obras literárias contemporâneas, tanto na linguagem quanto no tema.  
À margem dos estudos literários italianos no Brasil, esse trabalho foi elaborado  
com o objetivo de apresentar o poeta. Para isso, foi imprescindível fazer um recorte do  
Novecentos para contextualizar esse período, mas também sua biografia.  
Paralelo a isso, uma revisão da literatura sobre tradução foi feita para compor o  
presente artigo, considerando que a realização de tal tarefa garante que o autor e a  
obra sejam divulgados, uma vez que ele é considerado o representante da estética  
crepuscular pela crítica literária. Dessa forma, a tradução tem a capacidade de  
aproximar potenciais leitores e contribuir para futuros estudos sobre a poética  
gozzaniana. No decorrer do tópico destinado a esse assunto, demonstrou-se a  
importância de levar em consideração as similaridades entre o português e o italiano  
que facilitam o procedimento, de modo que não se recomenda lapidar a obra de  
Gozzano que, por natureza, rejeita o conceito de poesia áulica valorizado pela tradição.  
Com base nesse debate, utilizou-se a poesia Alle soglie, incluída no livro I  
Colloqui (1911), para apresentar um exemplo do estilo do poeta. No entanto, mais do  
que explicar quem é Guido Gozzano, é essencial traduzi-lo para que sua obra de vida  
seja perpetuada, recebendo os méritos de uma obra que conta como parte crucial da  
história italiana sob o olhar comum de um homem, e não do vate ou soldado.  
REFERÊNCIAS  
ASOR ROSA, A. Storia europea della letteratura italiana: La letteratura della  
Nazione. Torino: Einaudi, 2009.  
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BARBOSA, Heloísa Gonçalves. Procedimentos técnicos da tradução: uma nova  
proposta. 3. ed. São Paulo: Pontes Editores, 2020.  
BRITTO, Paulo Henriques. A tradução literária. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização  
Brasileira, 2012.  
CASTELLO BRANCO, Lucia (org.). A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin:  
quatro traduções para o português. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2008.  
CRACIUN, Daniela. Crepuscolari e canone modernista. Analele Universității  
„Ovidius” Constanța. Seria Filologie, Constança, v. XXXII, n. 1, p. 65-75, 2021.  
FELTRIN, Laura. «Non amo che le rose che non colsi» Analisi della poetica  
gozzaniana da La via del rifugio a I Colloqui. Tese (Mestrado em Literatura  
Italiana) - Corso di Laurea in Filologia e letteratura italiana, Venezia: Università  
Ca’Foscari, p. 139, 2016/2017.  
FERRONI, Giulio. “Letteratura italiana contemporanea: 1900-1945”. Milano:  
Mondadori, 2007.  
GOZZANO, Guido. Tutte le poesie, a cura di Giacinto Spagnoletti. Roma: Newton  
Compton, 1993.  
LORENZINI, Niva. «I Colloqui» di Guido Gozzano. In: Letteratura Italiana Einaudi.  
Le Opere. Vol. I, a cura di Alberto Asor Rosa. Turim: Einaudi, 1992.  
SANTORO, Mario. Letteratura italiana del Novecento. Firenze: Le Monnier. 1983.  
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