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agradável na forma, pode ser ameaçador no conteúdo, e é a mulher,
enquanto representação/imagem, que cristaliza este paradoxo
(Mulvey, 1983, p. 443).
A crítica do excerto acima parte de uma análise sobre os mecanismos de prazer
que sustentam o cinema hollywoodiano tradicional: a mulher não emerge como
sujeito, mas como objeto de contemplação, convertida em superfície de projeção do
desejo masculino, como salienta Mulvey: “O ponto de partida é o modo pelo qual o
cinema reflete, revela e até mesmo joga com a interpretação direta, socialmente
estabelecida, da diferenciação sexual que controla imagens, formas eróticas de olhar e
o espetáculo” (Mulvey, 1983, p. 437).
Para isso, Mulvey recorre à psicanálise, especialmente aos conceitos de
escopofilia e identificação1. Em sua leitura, o cinema promove um duplo prazer: o
prazer de olhar, sustentado pela objetificação do corpo feminino; e o prazer narcísico,
que permite ao espectador masculino identificar-se com o protagonista e, por meio
dele, exercer domínio simbólico sobre a narrativa. A mulher, assim, não apenas
aparece como imagem, mas como aquilo que deve ser visto. Sua presença é construída
a partir de fragmentações, fetichizações e estetizações que servem ao interesse do
espectador. A autora propõe, portanto, a necessidade de uma ruptura: seria preciso
reformular a linguagem cinematográfica e, simultaneamente, o lugar da espectadora,
promovendo um cinema feminista que desestabilizasse os códigos dominantes.
A permanência do male gaze nas décadas subsequentes confirma que se trata de
um fenômeno estrutural. Ainda assim, produções contemporâneas – especialmente
dirigidas por mulheres – começam a tensionar esse olhar. A sexualidade feminina,
historicamente marcada por repressão, censura e culpa, passa a ser representada a
partir de outras perspectivas, em que o desejo é compreendido como experiência
subjetiva e não como espetáculo. É nesse contexto que obras como Baby Girl (2024), de
Halina Reijn, surgem como marcos importantes para se pensar novas possibilidades
de representação, pois questionam a estrutura visual e narrativa que Mulvey havia
identificado como central no cinema clássico.
1
Em Mulvey (1975), escopofilia refere-se ao prazer de olhar, uma forma de satisfação visual que se estrutura na
observação do outro como objeto – conceito derivado da psicanálise, sobretudo das formulações freudianas sobre
o impulso voyeurístico. No cinema clássico, esse prazer organiza-se a partir da exposição do corpo feminino como
espetáculo, reforçando sua posição de objeto de contemplação. Já o mecanismo de identificação opera como um
segundo eixo de prazer: o espectador masculino identifica-se com o protagonista ativo da narrativa, adotando sua
perspectiva e experimentando, por meio dele, uma posição de controle sobre o olhar. Esses dois processos – o prazer
de olhar e o prazer narcísico da identificação – articulam-se de modo a sustentar o male gaze, consolidando uma
estrutura visual que privilegia o ponto de vista masculino como centro da experiência cinematográfica.
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás