Revista Coletivo Cine - Fórum | v. 4 | n. 1|p. 1- 13 |2026 |ISSN: 2966 - 0513  
Artigo | Temática Livre  
Submetido em: 20/02/2026 Aceito em: 02/05/2026  
O TRAUMA COMO ESTRUTURA DA NARRATIVA: A  
CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE DE DAMARIS EM A  
CACHORRA, DE PILAR QUINTANA  
Fernanda de Oliveira  
Lopes  
Mestranda pelo Programa  
de Pós-Graduação em  
Mestrado em Estudos  
Literários (PPGMEL) da  
Universidade Federal de  
Rondônia (UNIR), Porto  
Velho RO. Pesquisadora  
na área de literatura latino-  
americana contemporânea,  
com foco em narrativas  
femininas, trauma e  
RESUMO  
O presente artigo analisa o romance A Cachorra (2017), da escritora colombiana Pilar  
Quintana, com foco na construção da subjetividade da protagonista Damaris a partir do  
conceito de trauma. O objetivo central é investigar de que modo o trauma opera como  
estrutura constitutiva do sujeito feminino representado na narrativa, não como elemento  
episódico, mas como fundamento da sua forma de sentir, agir e se vincular ao mundo. A  
análise articula três eixos teóricos complementares: a psicanálise freudiana e  
winnicottiana, com ênfase nos conceitos de trauma, compressão à repetição, reprexão e  
melancolia; o antimaternalismo de Vera Iaconelli (2023), que permite compreender a  
violência simbólica exercida sobre Damaris pela imposição social da maternidade como  
destino feminino obrigatório; e a crítica literária feminista de Elaine Showalter (1994)  
articulada ao conceito de entre-lugar de Silviano Santiago (2002), que situam o romance  
no interior de uma tradição literária que fala da margem para desestabilizar discursos  
hegemônicos. A análise demonstra que o comportamento de Damaris incluindo seu  
vínculo ambivalente com a cachorra Chirli e o ato de violência que encerra a narrativa  
é resposta coerente a um conjunto de experiências traumáticas não elaboradas, cuja  
estrutura se repete e se intensifica ao longo da obra. O trabalho se insere no campo dos  
estudos literários de orientação qualitativa, com abordagem analítico-interpretativa.  
subjetividade. Orientada  
pelo Prof. Dr. Fernando  
Simplício dos Santos.  
Palavras-chave: Trauma. Subjetividade feminina. Antimaternalismo. Literatura  
latino-americana. Psicanálise.  
TRAUMA AS A NARRATIVE STRUCTURE: THE CONSTRUCTION  
OF DAMARIS'S SUBJECTIVITY IN A CACHORRA, BY PILAR  
QUINTANA  
ABSTRACT  
This article analyzes A Cachorra (2017), by the Colombian writer Pilar Quintana,  
focusing on the construction of the protagonist Damaris's subjectivity through the  
concept of trauma. Its primary objective is to investigate how trauma functions as a  
constitutive structure of the female subject represented in the narrative, not as an episodic  
event but as the foundation of her ways of feeling, acting, and relating to the world. The  
analysis is grounded in three complementary theoretical frameworks: Freudian and  
Winnicottian psychoanalysis, with emphasis on the concepts of trauma, repetition  
compulsion, repression, and melancholia; Vera Iaconelli's (2023) anti-maternalism,  
which makes it possible to understand the symbolic violence inflicted upon Damaris  
through the social imposition of motherhood as the mandatory destiny of women; and  
Elaine Showalter's (1994) feminist literary criticism, articulated with Silviano Santiago's  
(2002) concept of the in-between space (entre-lugar), which situates the novel within a  
literary tradition that speaks from the margins in order to destabilize hegemonic  
discourses. The analysis demonstrates that Damaris's behaviorincluding her  
ambivalent bond with the dog Chirli and the act of violence that concludes the  
narrativeconstitutes a coherent response to a set of unresolved traumatic experiences  
whose structure is repeated and intensified throughout the novel. This study is situated  
within the field of qualitative literary studies and adopts an analytical-interpretative  
approach.  
Este artigo passou por avaliação por  
pares cega e software antiplágio.  
Keywords: Trauma. Female subjectivity. Anti-maternalism. Latin American literature.  
Psychoanalysis.  
LICENÇA ATRIBUIÇÃO NÃO  
COMERCIAL 4.0 INTERNACIONAL  
CREATIVE COMMONS CC BY-NC  
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INTRODUÇÃO  
O romance A Cachorra (2017), da escritora colombiana Pilar Quintana, situa no  
centro de sua narrativa uma mulher negra, pobre e infértil que vive isolada entre o  
mar e a selva do litoral pacífico colombiano. Damaris, essa é a protagonista da obra,  
carrega ao longo de toda a narrativa o peso de traumas acumulados, experiências de  
perda, abandono e culpa que remontam à infância e se ramificam pela vida adulta,  
estruturando silenciosamente sua forma de sentir, agir e se vincular ao mundo. Nesse  
sentido, a presente análise tem como objetivo central investigar de que modo o trauma  
opera na construção da subjetividade de Damaris, funcionando não como elemento  
episódico, mas como fundamento constitutivo do sujeito que o romance nos apresenta,  
tornando elemento essencial dos pilares narrativos.  
A escolha desse recorte analítico, o trauma como estrutura, distingue este  
trabalho de outras leituras já realizadas sobre o romance de Pilar Quintana, que  
tendem a privilegiar, em sua maioria, os eixos da animalização e da violência de  
gênero como chave interpretativa central. Sem negar a relevância dessas perspectivas,  
que aqui também comparecem como linhas auxiliares, propomos avançar em direção  
à dimensão psíquica do sujeito feminino representado: buscando compreender,  
portanto, como o aparato teórico do trauma, formulado por Sigmund Freud e  
expandido por D. W. Winnicott, permite iluminar a trajetória de Damaris não como  
desvio ou fracasso individual, mas como resposta coerente, ainda que dolorosa, a um  
conjunto de experiências que excederam sua capacidade de elaboração.  
A análise se organiza em diálogo com três eixos teóricos complementares. O  
primeiro, baseado na psicanálise freudiana e winnicottiana, oferece os instrumentos  
conceituais para pensar o trauma, a compulsão à repetição, à melancolia e ao  
mecanismo da repressão. O segundo, constituído pela teoria do antimaternalismo de  
Vera Iaconelli (2023), permite compreender a violência simbólica que recai sobre  
Damaris a partir da imposição social da maternidade como destino feminino  
obrigatório. O terceiro, situado na crítica literária feminista especialmente em Elaine  
Showalter (1994), e no conceito de entre-lugar de Silviano Santiago (2002), localiza o  
romance no interior de uma tradição de escrita que fala da margem para desestabilizar  
os discursos hegemônicos, e que elege como protagonista uma voz historicamente  
silenciada.  
Do ponto de vista metodológico, a pesquisa se insere no campo dos estudos  
literários de orientação qualitativa, com abordagem analítico-interpretativa baseada  
na leitura do romance e no diálogo com o referencial teórico selecionado. Não se trata,  
portanto, de aplicar uma grade externa ao texto literário, mas de escutar o que a  
própria narrativa organiza, os recursos de linguagem, as estruturas simbólicas, os  
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silêncios, a partir de categorias que lhe são contemporâneas e que ela, de algum modo,  
convoca.  
A hipótese central que orienta esta investigação é a de que o comportamento de  
Damaris ao longo do romance, incluindo seu vínculo ambivalente com a cachorra  
Chirli, sua progressiva incapacidade de manter vínculos afetivos estáveis e,  
finalmente, o ato de violência extrema que encerra a narrativa, não pode ser  
compreendido à revelia de sua história traumática. O trauma, em A Cachorra, é uma  
estrutura que se repete, desdobra e intensifica, moldando um sujeito cuja existência  
inteira é habitada por perdas que nunca foram elaboradas.  
A MARGEM COMO LUGAR DE FALA: ENTRE-LUGAR, CRÍTICA FEMINISTA E  
A VOZ DE PILAR QUINTANA  
Antes de adentrar a subjetividade de Damaris, é necessário situar o lugar de  
onde Pilar Quintana fala e o lugar literário que A Cachorra ocupa. Publicado  
originalmente em espanhol como La perra (2017), o romance foi vencedor do Prêmio  
Biblioteca de Narrativa Colombiana e projetou a autora caleña ao cenário internacional  
da ficção latino-americana. Mas o que interessa aqui não é apenas o reconhecimento  
institucional, mas a natureza do gesto narrativo que Quintana realiza ao eleger como  
centro de sua ficção uma mulher negra, trabalhadora doméstica, infértil, localizada na  
periferia absoluta de todos os circuitos de poder.  
O conceito de entre-lugar, formulado por Silviano Santiago em ensaio seminal  
de 1978, define o espaço paradoxal ocupado pela produção cultural latino-americana:  
nem dentro nem fora dos cânones hegemônicos europeus, mas em uma zona de  
tensão, negociação e reescrita permanente. Para Santiago, a literatura latino-americana  
se constrói justamente nesse intervalo:  
Entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a  
submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebeldia, entre  
a assimilação e a expressão ali, nesse lugar aparentemente vazio, seu  
templo e seu lugar de clandestinidade, ali se realiza o ritual  
antropófago da literatura latino-americana (Santiago, 2002, p. 26).  
Damaris habita esse entre-lugar de forma literal e figurada. Geograficamente,  
ela vive em uma região de fronteira, entre o mar e a selva, entre o rochedo e o povoado,  
entre a casa dos ricos que cuida e o casebre onde dorme. Simbolicamente, ela ocupa a  
zona de tensão entre a mulher que a sociedade espera que seja (mãe, esposa,  
cuidadora, dócil) e aquela que, imposta pelas circunstâncias, ela de fato é. Igualmente,  
Pilar Quintana situa sua protagonista nesse espaço ambíguo e escreve a partir dele,  
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desestabilizando as representações canônicas do sujeito feminino na ficção latino-  
americana.  
A crítica literária feminista, conforme formulada por Elaine Showalter, oferece  
um segundo ângulo de entrada nessa problemática. Para Showalter, a ginocrítica, que  
é a modalidade de crítica voltada para a especificidade da escrita e da representação  
femininas, deve interrogar "a história, os estilos, os temas, os gêneros e as estruturas  
da literatura de mulheres; a psicodinâmica da criatividade feminina; a trajetória da  
carreira literária individual ou coletiva; e a evolução e as leis de uma tradição literária  
de mulheres" (Showalter, 1994, p. 29). Lida sob esse prisma, A Cachorra não é apenas  
um romance que tem uma mulher como protagonista: é um texto que produz uma  
intervenção no campo das representações do feminino, subvertendo os estereótipos de  
gênero e recusando as narrativas de redenção ou purificação que frequentemente  
enquadram as personagens femininas na ficção hegemônica.  
Damaris não redime, não cresce, não supera. Ela afoga, aperta, mata. E o  
romance a apresenta com uma implacável fidelidade ao que ela é, um sujeito  
produzido por condições históricas, sociais e psíquicas que a excedem e que ela não  
escolheu. Esse é o gesto literário mais radicalmente feminista do romance: tratar uma  
mulher negra, pobre e traumatizada com a mesma complexidade psíquica que a  
tradição canônica reserva aos seus heróis masculinos.  
O IMPERATIVO DA MATERNIDADE E O ANTIMATERNALISMO: CONTEXTO  
SIMBÓLICO DO SOFRIMENTO DE DAMARIS  
Para compreender o trauma de Damaris em sua plenitude, é necessário  
compreender o campo simbólico no interior do qual ele se manifesta, que seria o  
campo da maternidade compulsória. Vera Iaconelli, psicanalista e pesquisadora  
brasileira, desenvolve em Manifesto Antimaternalista (2023) uma análise fundamental  
para pensar a experiência da protagonista. Para Iaconelli:  
Maternidade é um termo curioso pela multiplicidade de sentidos que  
conjuga e pelos paradoxos que cria. Pode significar a relação de  
parentesco com os filhos, mas também o hospital onde se costuma  
parir. "Mãe" é um significante que contempla a mulher que deu à luz,  
a mulher responsável pelo filho sem tê-lo parido, a mulher que é  
responsável legalmente, mas que não se ocupa do filho (Iaconelli, 2023,  
p. 16).  
Essa multiplicidade, longe de ser um dado neutro, aponta para a violência  
simbólica que o significante "mãe" carrega: ele designa simultaneamente o papel social,  
o vínculo afetivo, a função biológica e o dever moral, condensando numa única palavra  
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um conjunto de exigências frequentemente contraditórias que recaem sobre as  
mulheres de forma desigual. O antimaternalismo proposto por Iaconelli não é, nem de  
perto, uma rejeição da maternidade como experiência, ao contrário, é justamente uma  
crítica à sua naturalização como destino universal e à compulsão que ela exerce sobre  
os sujeitos femininos em contextos patriarcais.  
Damaris não sofre por não ser mãe apenas no sentido pessoal e íntimo do termo.  
Ela sofre porque um mundo inteiro, sua prima Luzmila, seu marido Rogelio, as  
mulheres do povoado, a define pelo que lhe falta. A pergunta que a comunidade repete  
desde os primeiros anos do casamento "Os bebês vêm quando?" ou "Por que que  
estão demorando tanto?" (Quintana, 2020, p. 16), tal vigilância social que transforma a  
ausência de filhos em desvio e a infertilidade em vergonha.  
Como demonstrou Elisabeth Badinter (1985), o amor materno não é instinto  
natural, mas construção histórica e cultural. O que Damaris experimenta, portanto, é  
o produto de um sistema que define o valor da mulher pela sua capacidade  
reprodutiva e condena, silenciosamente, aquela que não cumpre esse imperativo. A  
dor de Damaris é fabricada socialmente, e ela a carrega como se fosse exclusivamente  
sua. O fato de que o romance inscreve o antimaternalismo também no espaço animal,  
a cachorra Chirli revelará ser uma mãe que abandona e devora os próprios filhotes,  
mostra que Quintana recusa a idealização da maternidade em todos os registros,  
humano e não humano, demonstrando que o "instinto materno" é uma projeção  
cultural, não um dado da natureza.  
DAMARIS E O PESO DO PASSADO: FUNDAMENTOS PSICANALÍTICOS DO  
TRAUMA  
A psicanálise freudiana oferece os instrumentos mais precisos para pensar a  
trajetória de Damaris. Em sua formulação clássica, o trauma é concebido como uma  
experiência cujo afluxo de excitações ultrapassa a capacidade de elaboração do  
aparelho psíquico. Em síntese apresentada por Fulgencio (2004), Freud o define como:  
[...] uma experiência vivida que leva à vida da alma, num curto espaço  
de tempo, um acréscimo de estímulos tão grande que sua liquidação  
ou elaboração, pelos meios normais e habituais, fracassa, o que não  
pode deixar de acarretar perturbações duradouras no funcionamento  
energético (Freud, 1916-17 apud Fulgencio, 2004).  
O traço central dessa concepção é que o passado traumático não se dissolve com  
o tempo: ele persiste como reminiscência ativa, manifestando-se em sintomas, afetos e  
comportamentos que o sujeito frequentemente não consegue atribuir a nenhuma causa  
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presente. Em Estudos sobre a Histeria (1893-1895), Breuer e Freud já formulavam que os  
sintomas histéricos se baseiam em cenas do passado "que causaram grande impressão,  
mas que permaneceram esquecidas" (Freud; Breuer, 1974). A memória traumática não  
segue a lógica do esquecimento ordinário; ela se conserva com toda a carga afetiva  
original, pronta a ser reativada por qualquer elemento que com ela ressoe.  
Winnicott (apud Fulgencio, 2004) expande essa noção ao conceber o trauma  
como "um fracasso relativo à dependência", que seria uma ruptura na continuidade de  
ser provocada por falhas do ambiente que deveriam sustentar o desenvolvimento  
subjetivo. Diferentemente de Freud, que enfatiza a dimensão econômica e pulsional  
do trauma, Winnicott o pensa a partir das relações inter-humanas: o trauma ocorre  
quando o ambiente (família, cuidadores, comunidade) falha em oferecer a  
confiabilidade necessária ao processo de amadurecimento. Essa perspectiva é  
especialmente produtiva para a leitura de Damaris, pois sua história é marcada,  
precisamente, por falhas ambientais sucessivas que interrompem repetidamente o que  
Winnicott denomina de "continuidade de ser".  
Outro conceito freudiano fundamental para esta leitura é o de compulsão à  
repetição, formulado em Além do Princípio de Prazer (1920). Ali, Freud constata que  
pacientes traumatizados tendem a reproduzir, em sonhos e em atos, as situações que  
lhes causaram sofrimento, porque o aparelho psíquico, ao não conseguir elaborar o  
evento traumático, é compelido a repeti-lo na busca de uma elaboração que nunca se  
completa. O número trinta e três, recorrente em A Cachorra, corresponde aos dias de  
chicotadas recebidos na infância; aos dias em que Chirli desaparece na mata; aos dias  
em que o corpo de Nicolasito tardou para aparecer. Esse aspecto opera no romance  
exatamente como essa repetição compulsiva que o inconsciente da protagonista não  
consegue superar.  
A GÊNESE DO SUJEITO TRAUMATIZADO: PERDAS FUNDANTES NA  
TRAJETÓRIA DE DAMARIS  
Para compreender quem Damaris é no presente da narrativa, é preciso retornar  
ao passado que a formou. O romance revela, de maneira fragmentada e progressiva,  
que a protagonista cresceu sob o signo da perda e da precariedade. Sua história começa  
com a ausência paterna: o pai, um soldado, abandonou sua mãe quando estava  
grávida, e ela teve que ir trabalhar em Buenaventura para sustentar a filha (Quintana,  
2020, p. 25). A esse primeiro abandono se soma, aos quinze anos de Damaris, a morte  
da mãe: "Uma bala perdida atingiu o peito da mãe de Damaris. No posto de saúde do  
povoado não puderam fazer nada por ela [...] ela já chegou morta ao hospital"  
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(Quintana, 2020, p. 29). Daqui, já se observa o incipiente surgimento do trauma na vida  
da protagonista.  
Esse encadeamento de perdas primárias, outrossim, constitui o substrato sobre  
o qual se assentará toda a subjetividade posterior de Damaris. Mas é a morte de  
Nicolasito, o amigo de infância branco e abastado, tragado pelo mar durante uma  
brincadeira, o evento que opera como trauma fundante, no sentido freudiano mais  
rigoroso do termo. A narrativa descreve com exatidão o estado psíquico da  
protagonista imediatamente após o acontecimento:  
Damaris teve que voltar sozinha por uma selva que lhe pareceu mais  
fechada e escura do que nunca. Acima, as copas das árvores se  
juntavam e, embaixo, as raízes se cruzavam. Seus pés se enterravam no  
tapete de folhas mortas do solo e desapareciam no barro, e ela começou  
a sentir que a respiração que escutava não era a sua, e sim a da selva, e  
que era ela e não Nicolasito que estava se afogando em um mar  
verde repleto de formigas e plantas (Quintana, 2020, p. 26-27).  
A fusão entre o corpo de Damaris e o ambiente da selva (nota-se que ela que se  
afoga, não Nicolasito) é o registro literário preciso de uma ruptura psíquica. Freud  
distingue, em Além do Princípio de Prazer (1920), três estados relacionados ao perigo: a  
ansiedade (preparação para um perigo esperado); o medo (que exige um objeto  
definido) e o susto; "o estado em que alguém fica quando entrou em perigo sem estar  
preparado para ele". É o susto, caracterizado pela falta de preparo e pela ausência de  
mecanismos defensivos ativados, que atinge Damaris. Sem proteção psíquica, o evento  
inunda o aparelho mental sem encontrar resistência, e ali se instala como algo que não  
pode ser elaborado nem descartado.  
A segunda camada traumática, contudo, não é a morte de Nicolasito em si: é a  
resposta do entorno. Damaris foi responsabilizada pela tragédia e chicoteada pelo tio  
Eliécer por trinta e três dias consecutivos, um castigo progressivo que crescia à medida  
que o corpo do menino não era encontrado. Esse castigo configura o que Winnicott  
(apud Fulgencio, 2004) conceitua como falha ambiental grave: o ambiente que deveria  
sustentar o desenvolvimento do sujeito não apenas falha em acolhê-lo no momento da  
dor, como o pune por ela. Essa dupla violência, o evento e a reação do entorno,  
interrompe a "continuidade de ser" de Damaris e deposita em sua subjetividade um  
núcleo de culpa crônica, tendência à autopunição e dificuldade de sustentar vínculos  
afetivos sem que sejam atravessados por essa ferida originária.  
É significativo que esse trauma se inscreva não apenas psiquicamente, mas  
também no espaço físico da vida adulta de Damaris. Na maturidade, ela habita e cuida  
precisamente da casa da família Reyes, a casa de Nicolasito. O passado traumático  
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literalmente a habita. Quando precisa telefonar ao pai do menino morto para  
comunicar a morte do caseiro da propriedade, o romance revela com precisão como a  
memória traumática opera:  
Entrou na cabine, discou os números [...]. Damaris achou que do outro  
lado daqueles ruídos estava uma parte muito feia de seu passado [...].  
Seu Luis Alfredo escutou o nome e se fez um silêncio terrível, que ela  
recebeu resignada, como havia recebido resignada as chicotadas do tio  
em todas aquelas tardes, por trinta e três dias. Para os Reyes ela era  
uma ave negra, um sinal de mau agouro (Quintana, 2020, p. 31-32).  
A comparação espontânea que Damaris estabelece, o silêncio do patrão  
equivale às chicotadas do tio, é a mais clara demonstração de como o passado  
traumático opera no presente: o que deveria ser uma simples ligação telefônica reativa  
décadas de culpa, subordinação e humilhação. Essa é precisamente a lógica do que  
Freud e Breuer (1974) descreveram como reminiscência: a memória traumática não se  
desgasta como as demais recordações, mas persiste com toda a sua carga afetiva  
original.  
CHIRLI E O ESPELHO IMPOSSÍVEL: PROJEÇÃO, DECEPÇÃO E COMPULSÃO  
À REPETIÇÃO  
É nesse contexto de vazio afetivo, infertilidade compulsoriamente significada  
como falha e solidão relacional, que Damaris adota a filhote de cachorra órfã. O gesto  
fundador da projeção é a nomeação: ela lhe dá o nome Chirli, o mesmo que reservava  
para a filha que nunca pôde ter. Nomear, nesse sentido, é inscrever a cachorra no  
campo do desejo materno frustrado. Chirli não é apenas um animal: ela é o objeto sobre  
o qual Damaris transfere um amor que não encontrou destinatário.  
Em um primeiro momento, esse amor é genuíno e merece ser reconhecido como  
tal. Damaris carrega a filhote no sutiã para mantê-la aquecida; acorda de madrugada  
para atravessar a angra a remo e comprar leite; vigia sua segurança com uma  
intensidade que excede o cuidado com um animal de estimação; revela o quanto  
aquele vínculo preenche um vazio que nada mais preencheu. Quando Chirli  
desaparece pela primeira vez na mata, a reação de Damaris ultrapassa a preocupação  
ordinária: ela entra na selva à noite, sem medo, com facão e lanterna, movida por um  
único pensamento, "a cachorra estava em perigo e ela precisava salvá-la" (Quintana,  
2020, p. 46). A ausência da cachorra desperta o mesmo sentimento de abandono que  
marcou a vida inteira de Damaris, reativando o trauma originário com toda a sua carga  
afetiva.  
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Os sonhos que Damaris tem durante o desaparecimento de Chirli revelam essa  
fusão entre o presente e o passado traumático. Ela sonha que a selva invade o casebre,  
que a cobre de lama, que ela se transforma em "tronco, em musgo, em barro, tudo ao  
mesmo tempo", e só então encontra a cachorra, que a lambe para dizer oi (Quintana,  
2020, p. 46). Esse sonho repete, em linguagem onírica, a experiência da selva após a  
morte de Nicolasito: a dissolução do corpo, a fusão com o ambiente hostil, a perda das  
fronteiras do eu. Para Freud (1976), os sonhos traumáticos têm a característica de  
"repetidamente trazer o paciente de volta à situação em que o trauma ocorreu",  
revelando uma função do aparelho mental independente do princípio de prazer e mais  
primitiva do que ele. Damaris não sonha apenas com Chirli, ela sonha com todos os  
abandonos que não conseguiu elaborar.  
O número trinta e três, já mencionado, retorna para confirmar essa lógica de  
repetição compulsiva. Chirli desaparece por exatamente trinta e três dias, os mesmos  
dias de chicotadas recebidos da infância, o mesmo tempo que o corpo de Nicolasito  
ficou sumido. O romance opera, nessa contagem, o mecanismo que Freud denominou  
de compulsão à repetição: os mesmos números, os mesmos abandonos, o mesmo ciclo,  
porque nada foi elaborado. A ressalva que o próprio texto faz é significativa: "Tinham  
se passado trinta e três dias, doze a mais do que seu Gene havia ficado sumido e só  
um a menos do que Nicolasito" (Quintana, 2020, p. 57). Não entendemos a contagem  
dos dias como mero detalhe narrativo, mas justamente a maneira como o inconsciente  
de Damaris é inscrito na estrutura temporal do romance.  
A gravidez de Chirli é o ponto de virada mais agudo da relação. Anunciada  
pelo próprio marido, Rogelio, a quem Damaris nunca pôde dar filhos, ela converte a  
cachorra em espelho irresistível da incapacidade que mais envergonha a protagonista.  
"Para Damaris foi como um soco no estômago: sentiu que estava ficando sem ar"  
(Quintana, 2020, p. 65). A cachorra realiza biologicamente aquilo que Damaris não  
consegue. E a maternidade de Chirli, longe de ser apresentada como redenção, é  
descrita como fracasso, pois ela abandona os filhotes, devora um deles, recusa a  
mamar. O romance desmonta, assim, o mito do instinto materno tanto na protagonista  
humana quanto no animal, confirmando o que Badinter (1985) e Iaconelli (2023)  
formularam teoricamente: a maternidade não é natureza, é construção, e pode ser tão  
violenta quanto qualquer outra imposição social.  
O AMOR QUE APRISIONA E O ÓDIO QUE MATA: O DESFECHO E SEUS  
DESDOBRAMENTOS SIMBÓLICOS  
A transformação do amor em ódio é um dos processos mais cuidadosamente  
construídos do romance. Ela não ocorre de forma abrupta, mas em camadas sucessivas  
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de decepção, abandono e acúmulo afetivo não elaborado. À medida que Chirli vai  
frustrando as expectativas projetadas sobre ela, fugindo, indiferente, mas estando que  
grávida, Damaris vai deslocando para a cachorra a raiva que não consegue dirigir às  
suas causas reais, a infertilidade, o abandono, o casamento sem afeto, a exploração do  
trabalho doméstico, a culpa originária.  
Freud demonstra, em seu texto sobre a repressão (1974), que o mecanismo pelo  
qual um impulso instintual é expulso da consciência não o elimina, mas ele força o  
afeto a encontrar vias indiretas de expressão, que frequentemente assumem a forma  
de desprazer ou de deslocamento para outros objetos. O ódio de Damaris por Chirli é,  
portanto, o retorno de algo que não pôde ser dito em sua forma original. A raiva que  
ela sente pela sua condição, difusa, intocável, sem alvo definido, encontra na cachorra  
um objeto concreto sobre o qual se exercer. O mecanismo é o mesmo que Freud  
descreveu em Luto e Melancolia (1917): quando a libido se retira de um objeto perdido  
sem encontrar outro para se ligar, ela retorna ao ego pela via da identificação, e o  
sujeito passa a tratar a si mesmo e os objetos que o espelham com a hostilidade que  
não pôde ser dirigida à perda original.  
A melancolia que domina o final do romance tem exatamente a textura que  
Freud descreveu: "um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo  
mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer  
atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar  
expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento" (Freud, 1974, p. 244). Essa  
configuração se manifesta com nitidez quando os traumas da infância retornam, no  
momento de colapso emocional que precede o desfecho:  
Damaris voltou a sentir o peso da culpa como se o tempo não tivesse  
passado. O sofrimento dos Reyes, as chicotadas de seu tio, os olhares  
das pessoas que sabiam que ela, por conhecer o rochedo e seus perigos,  
poderia ter evitado a tragédia [...]. Também pensou que era  
merecedora de todos os olhares feios das pessoas, de todas as suspeitas  
e acusações e todas as chicotadas do tio Eliécer, que ele devia ter batido  
nela mais vezes e com maior fúria. (Quintana, 2020, p. 88-89).  
A convicção de que merece mais punição do que recebeu é o traço mais  
característico da melancolia freudiana, e o que a distingue do luto comum. No luto, a  
perda é de um objeto externo; na melancolia, a agressividade que o sujeito sentia pelo  
objeto perdido é voltada contra o próprio ego. Damaris não elaborou nenhuma de suas  
perdas, a mãe, a maternidade, a filha imaginada, a cachorra, e por isso as voltas contra  
si mesma na forma de culpa e de desejo de autopunição.  
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É nesse estado de colapso que ocorre o desfecho. Damaris enforca Chirli com  
um nó corrediço, mesmo instrumento que, em cena anterior, havia quase matado a  
cachorra por acidente, e que Rogelio precisou cortar para salvá-la. O romance fecha,  
com esse gesto, um arco simbólico preciso: o que era contenção (prender para não  
perder) converte-se em destruição (apertar até matar). O amor que aprisiona e o ódio  
que mata são, em A Cachorra, duas faces da mesma incapacidade, forjada pelos  
traumas não elaborados de uma vida inteira de se relacionar com o outro sem absorvê-  
lo ou destruí-lo.  
O detalhe da satisfação que se segue à morte de Chirli como expresso no  
seguinte trecho: "com horror, mas também com uma espécie de satisfação, que era  
melhor não reconhecer e enterrar debaixo das outras emoções" (Quintana, 2020, p. 92)  
é a mais honesta e perturbadora revelação do romance. A violência não é apenas  
ódio: há também alívio. A descarga de afeto reprimido produz, momentaneamente,  
uma liberação que a protagonista não consegue reconhecer nem nomear. Para Crettiez  
(2011, p. 15), a violência pode ter como finalidade "sua expressão, satisfazendo certa  
cólera, ódio, um sentimento negativo". A morte de Chirli é a passagem ao ato de uma  
dor que não encontrou elaboração, acúmulo de traumas, de frustrações, de violências  
difusas que convergem num único gesto destrutivo.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A análise desenvolvida ao longo deste artigo buscou demonstrar que o  
comportamento de Damaris em A Cachorra incluindo seu vínculo ambivalente com  
Chirli, sua progressiva incapacidade de manter laços afetivos e o ato de violência que  
encerra a narrativa não pode ser compreendido à revelia de sua história traumática. O  
trauma, nesse romance, é a estrutura que atravessa a constituição do sujeito, moldando  
sua forma de perceber, sentir e agir no mundo.  
A hipótese central deste texto foi confirmada: as ferramentas teóricas da  
psicanálise freudiana o trauma como excitação não elaborada, a compulsão à  
repetição, a repressão e a melancolia combinadas à perspectiva winnicottiana do  
trauma como falha ambiental, oferecem os instrumentos mais precisos para iluminar  
a trajetória de Damaris. O que a leitura do romance a partir desses instrumentos  
permite revelar é que sua protagonista não é uma mulher que "enlouqueceu" ou "cedeu  
ao ódio" por um motivo pontual. Ela é uma mulher cujo aparato psíquico foi  
sistematicamente sobrecarregado pela morte da mãe, pela responsabilização pela  
morte de Nicolasito, pelos anos de infertilidade significada como falha, pelo casamento  
sem afeto, pelo trabalho invisibilizado e que, ao não encontrar condições para elaborar  
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nenhuma dessas experiências, reproduz o traumático em ato, no único objeto que  
restava: a cachorra que espelhava o que ela mais desejou e nunca pôde ter.  
A articulação desse eixo analítico com o antimaternalismo de Iaconelli (2023)  
permitiu compreender que o sofrimento de Damaris é produzido por um sistema que  
define o valor da mulher pela sua capacidade reprodutiva e que pune, simbolicamente,  
aquela que não cumpre esse imperativo. O trauma de Damaris é psíquico e social ao  
mesmo tempo indissociáveis as duas dimensões, que se alimentam mutuamente.  
A leitura a partir de Silviano Santiago (2002) e da crítica feminista de Showalter  
(1994) permitiu, por fim, situar o romance no interior de uma tradição literária que fala  
da margem para desestabilizar os discursos hegemônicos. Pilar Quintana escreve a  
partir desse lugar, recusando as narrativas de redenção e expondo, com implacável  
fidelidade, o que acontece quando um sujeito não encontra as condições mínimas para  
existir.  
A estrutura circular do romance uma cachorra-mãe envenenada na abertura, a  
cachorra-filha enforcada no fechamento evidencia que a violência não é episódica, mas  
estrutural ela se reproduz nos corpos das fêmeas, de geração em geração, sem que  
nenhuma delas encontre saída. A Cachorra é, assim, um romance sobre o que o trauma  
faz quando não é elaborado, ele retorna, se repete, e finalmente se consuma, como  
consequência. E é nessa distinção que reside a dimensão mais crítica, e mais necessária,  
da obra de Pilar Quintana.  
REFERÊNCIAS  
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revisitando as origens. Fragmentum, Santa Maria, n. 49, p. 15-31, jan./jun. 2017.  
BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Tradução de  
Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.  
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Edições Loyola, 2011.  
FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria. In: FREUD, Sigmund.  
Obras completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 2.  
FREUD, Sigmund. Repressão. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Edição Standard  
Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 14.  
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Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 14.  
FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. In: FREUD, Sigmund.. Obras  
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FULGENCIO, Leopoldo. A noção de trauma em Freud e Winnicott. Natureza Humana,  
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Disponível  
em:  
IACONELLI, Vera. Manifesto antimaternalista: por uma psicanálise da não-  
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QUINTANA, Pilar. A cachorra. Tradução de Livia Deorsola. Rio de Janeiro: Intrínseca,  
2020.  
SANTIAGO, Silviano. O entre-lugar do discurso latino-americano. In: SANTIAGO,  
Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo  
Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 19-36.  
SHOWALTER, Elaine. A crítica feminista no território selvagem. In: HOLLANDA,  
Heloísa Buarque de (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da  
cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 23-57.  
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