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Artigo | Temática Livre
como o uke, o desejo de amar como o seme e o fascínio pela ideia de um amor romântico
recíproco.
Em contrapartida, Nagaike (2012) propõe uma revisão crítica da noção de male
gaze formulada por Mulvey (1983), colocando em dúvida a ideia de um olhar
rigidamente associado a um gênero específico. Para a autora, essa abordagem levanta
duas questões centrais: haveria, de fato, um único olhar claramente generificado? E
esse olhar estaria necessariamente vinculado a relações de poder? Ao recorrer a Lacan,
ela aponta a possibilidade de inversão dessa dinâmica, na qual aquele que observa
também pode ser transformado em objeto do olhar, desestabilizando a suposta rigidez
dessas relações. A partir dessa perspectiva, Nagaike (2012) argumenta que, nas
narrativas de yaoi/BL, não se estabelece obrigatoriamente uma relação de opressão
entre os personagens, o que contrasta com certas leituras mais críticas do gênero.
Segundo ela, esse tipo de conotação negativa associada à posição passiva raramente
aparece nas representações do uke, justamente porque o yaoi/BL se configura como
uma fantasia feminina, regida por uma lógica própria de construção de gênero. Ainda
assim, essa interpretação abre espaço para questionamentos, especialmente ao se
considerar que o uke frequentemente performa características socialmente associadas
ao feminino.
Proponho, então, o termo fujoshi gaze – uma adaptação da noção de male gaze de
Mulvey (1983) ao contexto do boys love. Nesse caso, ao invés de um “olhar masculino”,
as narrativas seriam estruturadas a partir da perspectiva da fujoshi. Assim, seu
conteúdo tende a ser orientado prioritariamente pelas fantasias desse público, em vez
de buscar correspondência direta com a realidade.
Preciado (2022) conceitua a contrassexualidade – a possibilidade de os corpos
autodeterminarem seus destinos, em oposição a uma suposta definição “natural” da
sexualidade. Segundo o autor, a sociedade contemporânea regula os corpos e seus
órgãos reprodutivos por meio de uma espécie de “tecnologia sexual”, orientada à
normatização e à sexualização. Nesse sentido, Preciado argumenta que o gênero não
pode ser compreendido apenas como performance, uma vez que envolve uma
complexidade mais ampla de dispositivos e construções.
No contexto do boys love – e, de modo particular, em Cherry Magic! –, a noção de
contrassexualidade se manifesta na medida em que as categorias tradicionais de
gênero se tornam difusas. Nesse tipo de narrativa, a ideia de gênero performativo se
dilui em meio às múltiplas camadas que estruturam o BL. Se, como propõe Preciado
(2022), todos os corpos podem acessar diferentes práticas significantes e posições de
enunciação, torna-se coerente pensar que, nessas obras, os personagens não
apresentam identidades de gênero e sexualidade rigidamente definidas. Tal
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás