Revista Coletivo Cine - Fórum | v. 4 | n. 1|p. 1- 13 |2026 |ISSN: 2966 - 0513  
Artigo | Temática Livre  
Submetido em: 12/03/2026 Aceito em: 01/06/2026  
BOYS LOVE: QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE  
Paulo Henrique Testoni  
Mestre em Ciências da  
Linguagem pela  
DAS PÁGINAS PARA AS TELAS  
Universidade do Sul de  
Santa Catarina UNISUL.  
Graduado em  
Comunicação Social –  
Publicidade e Propaganda  
pela Universidade do Vale  
do Itajaí em e em Letras –  
Inglês pelo Centro  
RESUMO  
Este trabalho investiga as dinâmicas de gênero e sexualidade no gênero boys love (BL),  
utilizando como objeto de análise a obra Cherry Magic! em suas versões de mangá e  
adaptação para dorama. O estudo contextualiza o surgimento do BL a partir da  
demografia shōjo no Japão e sua posterior expansão audiovisual no Leste Asiático,  
especialmente por meio das produções live action tailandesas. Por meio de uma pesquisa  
bibliográfica fundamentada em autores como Mark McLelland, James Welker e Judith  
Butler, analisa-se a construção dos arquétipos seme e uke e como essas representações  
dialogam com o desejo e o imaginário do público primordialmente feminino, as fujoshis.  
Os resultados apontam que, embora Cherry Magic! mantenha traços tradicionais de  
gênero como a diferenciação física e de papéis entre os protagonistas Adachi e  
Kurosawa a obra também reflete tendências contemporâneas de flexibilização de  
normas de poder e maior proximidade com a realidade LGBTQIA+. Conclui-se que o  
BL funciona como um espaço de subversão e fantasia, onde as categorias de gênero são  
reelaboradas sob a perspectiva de um "fujoshi gaze".  
Universitário Leonardo da  
Vinci. E-mail:  
Palavras-chave: Boys love. Gênero. Cherry Magic!. Mangá. Dorama.  
BOYS LOVE: GENDER AND SEXUALITY CONCEPTS FROM THE  
PAGES TO THE SCREEN  
ABSTRACT  
This work investigates the dynamics of gender and sexuality in the boys love (BL) genre,  
using the manga and dorama adaptation of Cherry Magic! as an object of analysis. The  
study contextualizes the emergence of BL from the shōjo demographic in Japan and its  
subsequent audiovisual expansion in East Asia, especially through Thai live action  
productions. Through bibliographic research based on authors such as Mark McLelland,  
James Welker, and Judith Butler, the construction of the seme and uke archetypes is  
analyzed, as well as how these representations interact with the desires and imagination  
of the primarily female audience, the fujoshi. The results indicate that, although Cherry  
Magic! maintains traditional gender traits such as the physical and role differentiation  
between the protagonists Adachi and Kurosawa the work also reflects contemporary  
trends of flexible power norms and greater proximity to LGBTQIA+ reality. It can be  
concluded that BL functions as a space of subversion and fantasy, where gender  
categories are reworked from the perspective of a "fujoshi gaze".  
Este artigo passou por avaliação por  
pares cega e software antiplágio.  
Keywords: Boys love. Gender. Cherry Magic!. Manga. Dorama.  
LICENÇA ATRIBUIÇÃO NÃO  
COMERCIAL 4.0 INTERNACIONAL  
CREATIVE COMMONS CC BY-NC  
2/13  
Artigo | Temática Livre  
INTRODUÇÃO  
O boys love (BL) é um gênero presente tanto na literatura quanto no audiovisual  
que, como o nome sugere, aborda histórias de amor entre dois homens ou rapazes.  
Surgido no Japão, teve início nos mangás, depois se expandiu para os animês e, mais  
recentemente, passou a ganhar espaço nos doramas, as séries televisivas japonesas.  
Embora trate de relações homoafetivas, seu público predominante é composto por  
mulheres heterossexuais (McLelland et al., 2015). Essa característica está ligada a  
diferentes fatores, especialmente às questões de gênero, o que torna o BL um objeto de  
análise complexo e cheio de particularidades.  
O BL consolidou-se como uma presença marcante no consumo de  
entretenimento no Leste Asiático, inicialmente por meio de quadrinhos e animações,  
impulsionado pela ampla difusão da cultura pop japonesa nos países vizinhos  
(Iwabuchi, 2002). Posteriormente, influências vindas dos dramas televisivos do Japão  
e da Coreia contribuíram para que a Tailândia liderasse a adaptação do gênero para  
produções em live action (Zhang; Dedman, 2021). A partir desse movimento, outros  
territórios como Taiwan, Coreia do Sul e o próprio Japão também passaram a  
investir na criação de séries do gênero voltadas a um público mais amplo.  
Com a difusão global das produções BL, sobretudo no campo audiovisual  
(Mizoguchi, 2024), tem-se percebido um aumento no interesse acadêmico por suas  
especificidades, reconhecendo-o como um importante produto cultural. À medida que  
as discussões ligadas à comunidade LGBTQIA+ ganham mais visibilidade, também se  
amplia o volume de pesquisas dedicadas a esse tema. Além disso, trabalhos como o de  
Baudinette (2017) apontam que, embora o gênero tenha sido tradicionalmente  
associado ao público feminino, ele vem sendo cada vez mais incorporado por homens  
gays como parte do repertório de representações midiáticas LGBTQIA+. Diante desse  
cenário em transformação, o estudo do boys love torna-se especialmente pertinente.  
Entre as produções japonesas recentes do gênero BL em live action1, destaca-se  
a série Cherry Magic!2. Transmitida pelo canal TV Tokyo entre outubro e dezembro de  
2020, a obra é uma adaptação de um mangá homônimo publicado a partir de 2018.  
Considerada uma das produções que ajudaram a ampliar a presença do BL no formato  
de dorama para o grande público japonês, a série se insere em no modelo que já é  
bastante popular, marcado pela combinação de elementos cotidianos com aspectos  
fantásticos (Ōta, 2004). Embora a narrativa central permaneça semelhante nas versões  
em quadrinhos e televisão, há diferenças significativas entre elas.  
1 Trabalhos audiovisuais realizados com atores e atrizes reais, não animações.  
2
30歳まで童貞だと魔法使いになれるらしい (30-sai made dōteida to mahōtsukai ni narerurashī) em  
tradução livre, “Se você for virgem até os 30, você pode se tornar um mago”.  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
   
3/13  
Artigo | Temática Livre  
Figura 1 Cherry Magic!  
years-of-virginity-can-make-you-a-wizard. Acesso em: 27 março 2026.  
Este estudo tem como propósito central investigar como as questões de gênero  
se manifestam no universo do BL, tomando como objeto de análise a obra Cherry  
Magic!. Para isso, foram consideradas tanto a versão em mangá quanto sua adaptação  
em dorama. Realizou-se uma pesquisa de natureza bibliográfica (Gil, 2008) com o  
objetivo de aprofundar a compreensão acerca do percurso histórico dos temas  
abordados. Para investigar o gênero boys love, partiu-se inicialmente da análise de  
aspectos relacionados às questões de gênero e à homossexualidade no contexto  
japonês, com base em autores como Mark McLelland (2000). Em seguida, examinou-  
se o desenvolvimento do mangá e a emergência do BL, apoiando-se em estudos de  
diferentes pesquisadores, entre eles James Welker (2015). Posteriormente, as  
discussões teóricas de Judith Butler (2018) e Paul B. Preciado (2022) serviram de base  
para a análise das representações de gênero presentes em Cherry Magic!, tanto em sua  
versão em mangá quanto na adaptação live action. Além disso, contribuições de Hori  
Akiko (2020a; 2020b) e Mizoguchi Akiko (2024) foram incorporadas para oferecer uma  
perspectiva japonesa sobre o fenômeno boys love.  
Ao longo deste trabalho, opta-se pelo uso do sistema Hepburn como padrão  
para a romanização de termos em japonês, o qual emprega o mácron (¯) para indicar o  
alongamento das vogais. No caso de nomes de pessoas japonesas, será respeitada a  
convenção tradicional, apresentando-se primeiro o sobrenome e, em seguida, o nome.  
Já nas imagens que reproduzem páginas de mangá, a leitura deve ser realizada no  
sentido da direita para a esquerda.  
HISTÓRICO DO BOYS LOVE  
Os mangás, quadrinhos japoneses, ocupam um lugar central na cultura do  
Japão e fazem parte do cotidiano da população. A consolidação do mangá em sua  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
4/13  
Artigo | Temática Livre  
forma moderna ocorreu entre as décadas de 1920 e 1930, com a atuação de artistas  
como Rakuten Kitazawa e Ippei Okamoto, fortemente influenciados pelos quadrinhos  
ocidentais. Ainda nesse período, revistas voltadas ao público infantil como a Shōnen  
Kurabu (少年倶楽部, Clube dos Meninos) passaram a publicar histórias em capítulos,  
estabelecendo um formato de serialização que permanece em uso até os dias atuais  
(Ito, 2008).  
Para compreender o boys love de forma mais aprofundada, é necessário, antes,  
situá-lo em relação ao shōjo, demografia da qual se origina. Voltado principalmente  
para meninas adolescentes, esse segmento ganhou a configuração que conhecemos  
hoje a partir de obras como A Princesa e o Cavaleiro (Ribon no Kishi, リボンの騎士),  
criada por Osamu Tezuka, amplamente reconhecido como o precursor do mangá  
moderno.  
Figura 2 A Princesa e o Cavaleiro  
osamu. Acesso em: 27 março 2026.  
Somente na década de 1970 o mangá shōjo entrou em sua chamada “era de  
ouro”, período frequentemente associado à crescente presença de mulheres na  
produção dessas obras, em substituição aos autores homens que predominavam até  
então. Criadoras como Ikeda Riyoko, Hagio Moto e Takemiya Keiko foram  
responsáveis por transformar o gênero, ampliando a variedade de temas abordados e  
desenvolvendo narrativas mais densas e elaboradas (Welker, 2015).  
Uma das contribuições mais marcantes desse grupo de autoras foi o surgimento  
do shōnen-ai (少年愛, “amor entre garotos”) em meados dos anos 1970, concebido como  
um subgênero do shōjo. Esse novo estilo narrativo combinava influências tanto  
internas quanto externas ao universo do shōjo, e suas primeiras produções  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
5/13  
Artigo | Temática Livre  
costumavam apresentar romances entre jovens rapazes ambientados, em geral, em  
cenários escolares europeus.  
De acordo com Welker (2015, p. 46, tradução minha), pesquisadores apontam  
que as histórias de shōnen-ai funcionavam como um espaço no qual jovens leitoras  
podiam se reconhecer e projetar suas próprias experiências “[...] pelo fato de que os  
casais homem-homem neste tipo de narrativa geralmente têm sido compostos de um  
parceiro mais masculino e dominante relacionado com um mais feminino e passivo,  
então reproduzindo grosseiramente a binariedade homem-mulher”3. Posteriormente,  
essas caracterizações passaram a ser conhecidas pelos termos seme (攻め, atacante) e  
uke (受け, receptor).  
Durante a década de 1990, o mercado japonês presenciou um grande  
crescimento na produção de obras de shōnen-ai. Foi também nesse período que passou  
a se popularizar a expressão boys love, frequentemente abreviada como BL. Com esse  
fortalecimento, o gênero se estabeleceu de forma mais ampla, expandindo-se para  
outras mídias, como animês e light novels4, além de conquistar espaços específicos em  
livrarias e lojas especializadas em mangás (Welker, 2015).  
As primeiras aproximações do boys love com o audiovisual ocorreram por meio  
dos animês, isto é, das animações japonesas. No entanto, conforme aponta Jirattikorn  
(2021), a Tailândia foi um dos primeiros países a investir de maneira mais consistente  
em produções BL com atores, no formato de séries live action. A partir daí, esse tipo de  
conteúdo se expandiu gradualmente, conquistando audiência em regiões como China,  
Coreia do Sul e, posteriormente, o próprio Japão retornando ao seu país de origem  
em uma nova mídia. No contexto japonês, a consolidação de dramas televisivos  
voltados ao grande público com temática BL está relacionada ao período em que  
produções tailandesas como SOTUS: The Series e 2gether: The Series ganharam destaque  
no país, conforme discutem Welker (2022) e Mizoguchi (2024).  
AS FUJOSHIS O PÚBLICO-ALVO DO BOYS LOVE  
O boys love, para Hori (2020a), evoluiu em sua versão impressa a fim de que as  
mulheres suprissem seu prazer erótico. No Japão, o nome dado às fãs de BL é fujoshi (  
腐女子), que se traduz como “garota podre”. Para a autora, isso de dá devido ao fato  
de que, no país, ainda é considerado um grande estigma que mulheres busquem um  
3 […] by the fact that the male−male couples in such narratives have generally been comprised of a more masculine  
and dominant partner paired with a more feminine and passive one, thus roughly reproducing the malefemale  
binary.  
4
Light novel é um tipo de livro japonês voltado principalmente ao público jovem, caracterizado por linguagem  
simples e a presença de ilustrações no estilo mangá ao longo do texto. Costumam ser publicadas em volumes  
curtos e frequentemente fazem parte de séries.  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
   
6/13  
Artigo | Temática Livre  
prazer sexual. Ainda segundo ela, o fato de as narrativas serem compostas por dois  
homens afasta a possibilidade de haver uma retratação opressora ou sexista, sendo  
vista assim como um lugar de conforto para as leitoras. Para Galbraith (2011), as fujoshi  
veem as histórias apenas como fantasia, possuindo, em geral, uma vida  
heteronormativa. O autor ainda comenta que estas mulheres geralmente não possuem  
vontade em se envolver em narrativas queer na vida real limitando-se a consumir ou  
até mesmo produzir os conteúdos boys love.  
McLelland (2000) defende que enquanto o mundo heterossexual funciona como  
uma distopia, o BL seria visto como uma utopia. Segundo o autor, as tensões e  
dinâmicas de poder presentes nas relações entre homens e mulheres tenderiam a não  
se manifestar da mesma forma em vínculos entre dois homens. Dessa maneira, os  
personagens masculinos nas narrativas de boys love não são construídos estritamente  
dentro de uma lógica de gênero tradicional, frequentemente incorporando traços  
associados ao feminino, refletindo a perspectiva de suas autoras. De acordo com Hori  
(2020b), o BL ainda é frequentemente encarado no Japão como uma questão social  
controversa. No contexto japonês, obras desse gênero costumam receber classificação  
indicativa para adultos, mesmo quando não apresentam conteúdo sexual explícito. Em  
contraste, produções direcionadas ao público masculino que incluem sugestões de  
cunho sexual muitas vezes são disponibilizadas com restrições etárias mais brandas.  
Nagaike (2012, p. 114, tradução minha) discute a presença constante da  
sexualização no yaoi outra alcunha associada ao boys love. Segundo a autora, “Ao  
revelar a capacidade (e a necessidade) de projetar componentes reprimidos da  
sexualidade feminina em personagens masculinos no yaoi, leitoras femininas fazem  
uma tentativa de escapar do dilema de terem que lidar com sua própria repressão  
sexual”5. Além disso, ela observa que há uma demanda significativa por cenas de  
caráter sexual por parte do público feminino; ainda assim, essas leitoras também  
valorizam narrativas que enfatizam o “amor verdadeiro”, procurando conciliar ambos  
os elementos.  
QUESTÕES DE GÊNERO DO BOYS LOVE EM CHERRY MAGIC!  
Cherry Magic! acompanha a trajetória de Adachi Kiyoshi, funcionário de uma  
empresa japonesa do setor de papelaria. Ao completar trinta anos, ele descobre ter  
adquirido a habilidade de ler pensamentos ao tocar outras pessoas algo associado a  
uma crença popular. A partir dessa descoberta Adachi percebe que Kurosawa Yuichi  
5
Revealing the capacity (and necessity) for projecting the repressed components of female sexuality onto male  
characters in yaoi, female readers attempt to escape from the dilemma of dealing with their own sexual repression.  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
 
7/13  
Artigo | Temática Livre  
colega de trabalho admirado por sua aparência e popularidade nutre sentimentos  
por ele, o que o deixa profundamente surpreso e dá início à narrativa.  
Embora a versão em mangá e a adaptação em dorama compartilhem a mesma  
base narrativa, há distinções entre elas. Como aponta Hutcheon (2013), toda adaptação  
envolve transformações, mesmo quando busca manter fidelidade à obra original,  
devido às particularidades de cada meio. Certos elementos próprios de uma  
linguagem não podem ser plenamente reproduzidos em outra, o que impacta  
diretamente a forma como a história é construída e apresentada.  
Em Cherry Magic!, observa-se a presença do contraste entre os papéis de seme  
(associado a características como força, masculinidade e proteção) e uke (ligado a traços  
como sensibilidade, delicadeza e vulnerabilidade) em ambas as versões da narrativa.  
Nesse contexto, Kurosawa assume a posição de quem protege e conduz, enquanto  
Adachi é representado de forma mais passiva, alinhando-se a essa dinâmica  
tradicional do gênero. Para Nagaike (2012), as leitoras femininas tendem a se  
identificar mais com o personagem uke das obras boys love, justamente por eles  
representarem um espectro de emoções tradicionalmente consideradas femininas.  
Através deste tipo de representação, mesmo numa história onde o casal é composto  
por dois membros do sexo masculino, a mulher leitora consegue se sentir  
representada.  
Figura 3 Trecho do capítulo 8 de Cherry Magic!  
Fonte: TOYOTA, 2018.  
“Não toque no Adachi.” / “Com licença.” (Tradução minha)  
O BL desafia diversas concepções tradicionais sobre gênero. Como  
problematiza Judith Butler (2018), seria possível definir um “feminino” essencial,  
distinto do masculino, que pudesse ser reconhecido de forma universal entre as  
mulheres? Em suas reflexões, a autora busca justamente questionar os limites e  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
8/13  
Artigo | Temática Livre  
significados atribuídos à categoria “mulher”. Butler argumenta que, se o gênero  
corresponde a significados culturais atribuídos ao corpo sexuado, ele não pode ser  
entendido como uma consequência direta do sexo biológico. Levando essa ideia ao  
extremo, a separação entre sexo e gênero indicaria uma ruptura profunda entre o corpo  
biológico e as construções culturais associadas a ele. Em outras palavras, o gênero deve  
ser compreendido como uma construção social, e não como algo inerente à biologia.  
Para a autora, os gêneros passam a ser reconhecidos como compreensíveis a partir de  
identidades moldadas por práticas sociais reguladoras. Nesse contexto, a  
heterossexualização do desejo contribui para a construção de atributos associados ao  
“feminino” e ao “masculino”, vinculando-os, respectivamente, às categorias de  
“fêmea” e “macho”. Como consequência, identidades que escapam desse modelo  
tendem a ser marginalizadas ou silenciadas. Essa lógica também pode ser observada  
na dinâmica entre seme e uke, já que a definição rígida de características para cada um  
desses papéis favorece a consolidação desses arquétipos nas narrativas de boys love.  
Nesse sentido, Hori (2020a, p. 142, tradução minha) discute essa divisão ao analisar o  
gênero:  
Então, o BL apenas projeta o comportamento normativo de casais  
heterossexuais nos casais entre homens? Isso deveria ser discutido  
individualmente, pois existem grandes diferenças entre eles. [...] No  
caso de um casal homem-mulher, a norma de gênero tende a entrar em  
jogo, porém, no caso de um casal homem-homem não há diferença de  
gênero e a relação de poder torna-se inconstante. Nestas obras, o  
impotente uke é capaz de enfrentar o seme em uma relação de igualdade  
através de sentimentos românticos, e pode-se dizer que retrata a queda  
das relações de poder fixas. Gostaria de ressaltar também que no BL,  
desde os anos 2000, muitos trabalhos têm sido desenhados com  
padrões que não seguem a estrutura estética de seme/uke [...].  
Segundo a autora, as normas de gênero não se apresentam de maneira  
totalmente evidente no BL justamente por se tratarem de representações de relações  
entre homens. Ela também aponta que, a partir dos anos 2000, diversas obras passaram  
a flexibilizar esses padrões, deixando de seguir rigidamente os estereótipos  
tradicionais. Em Cherry Magic! ainda é possível identificar certos elementos típicos  
6
それではBLは、男性カップルに異性愛カップルの規範的なあり方をそのまま投影しているのだろう  
か。これは、作品によって大きな違いがあるため、個別具体的に論じるべきだと考える。[...] 男女カ  
ップルであれば、そこにジェンダー規範が作用しがちなのだが、男男カップルの場合、ジェンダー差  
が存在しないため、権力関係が可変的になる。こうした作品においては、力のない受が恋愛感情とい  
う要因によって攻と対等に対峙することを可能にしており、固定的な権力関係の転覆を描いていると  
もいえる。また、2000年代以降のBLでは、典型的な攻・受の構造ではないパターンの作品が数多く描  
かれていることも指摘しておきたい [...]。  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
 
9/13  
Artigo | Temática Livre  
dessa dinâmica, como a diferença de altura entre os protagonistas Adachi, associado  
ao papel de uke, sendo fisicamente menor que Kurosawa, relacionado ao seme. No  
entanto, diferentemente de muitos títulos do gênero, Kurosawa não demonstra  
comportamentos agressivos ou dominadores em nenhum momento, o que suaviza  
essa lógica de poder frequentemente presente no BL.  
De acordo com Mizoguchi (2024), observa-se uma tendência crescente de  
afastamento do caráter puramente fantasioso nessas narrativas, aproximando-as de  
experiências mais representativas para pessoas LGBTQIA+. A autora argumenta que  
produções mais recentes tendem a apresentar histórias mais próximas da realidade  
vivida por esses indivíduos. Ao comentar especificamente Cherry Magic!, ela destaca  
que, sobretudo na versão televisiva, a dificuldade em identificar claramente os papéis  
de seme e uke contribui para tornar a relação retratada mais semelhante à de casais gays  
na vida real.  
Figura 4 Trecho do episódio 4 de Cherry Magic!  
Ishida (2015), contudo, reúne diversas críticas de estudiosos gays e lésbicas  
acerca das formas de representação no boys love. O autor destaca, por exemplo, um  
recurso recorrente no gênero: o personagem associado ao papel de seme  
frequentemente se identifica como heterossexual, demonstrando interesse apenas por  
um único homem o uke. Nesse sentido, Ishida afirma que “O problema do yaoi/BL  
consiste no processo de reproduzir a relação hierárquica entre centro e periferia, e  
quase sempre relegar as representações da homossexualidade ao domínio da última”7.  
(Ishida, 2015, p. 223, tradução minha). Além disso, ele sugere que a experiência das  
leitoras de BL pode ser compreendida a partir de três dimensões: o desejo de ser amada  
7 The problem of yaoi/BL lies in the process of reproducing the hierarchical relation between center and periphery,  
and almost always relegating representations of homosexuality to the realm of the latter.  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
 
10/13  
Artigo | Temática Livre  
como o uke, o desejo de amar como o seme e o fascínio pela ideia de um amor romântico  
recíproco.  
Em contrapartida, Nagaike (2012) propõe uma revisão crítica da noção de male  
gaze formulada por Mulvey (1983), colocando em dúvida a ideia de um olhar  
rigidamente associado a um gênero específico. Para a autora, essa abordagem levanta  
duas questões centrais: haveria, de fato, um único olhar claramente generificado? E  
esse olhar estaria necessariamente vinculado a relações de poder? Ao recorrer a Lacan,  
ela aponta a possibilidade de inversão dessa dinâmica, na qual aquele que observa  
também pode ser transformado em objeto do olhar, desestabilizando a suposta rigidez  
dessas relações. A partir dessa perspectiva, Nagaike (2012) argumenta que, nas  
narrativas de yaoi/BL, não se estabelece obrigatoriamente uma relação de opressão  
entre os personagens, o que contrasta com certas leituras mais críticas do gênero.  
Segundo ela, esse tipo de conotação negativa associada à posição passiva raramente  
aparece nas representações do uke, justamente porque o yaoi/BL se configura como  
uma fantasia feminina, regida por uma lógica própria de construção de gênero. Ainda  
assim, essa interpretação abre espaço para questionamentos, especialmente ao se  
considerar que o uke frequentemente performa características socialmente associadas  
ao feminino.  
Proponho, então, o termo fujoshi gaze uma adaptação da noção de male gaze de  
Mulvey (1983) ao contexto do boys love. Nesse caso, ao invés de um “olhar masculino”,  
as narrativas seriam estruturadas a partir da perspectiva da fujoshi. Assim, seu  
conteúdo tende a ser orientado prioritariamente pelas fantasias desse público, em vez  
de buscar correspondência direta com a realidade.  
Preciado (2022) conceitua a contrassexualidade a possibilidade de os corpos  
autodeterminarem seus destinos, em oposição a uma suposta definição “natural” da  
sexualidade. Segundo o autor, a sociedade contemporânea regula os corpos e seus  
órgãos reprodutivos por meio de uma espécie de “tecnologia sexual”, orientada à  
normatização e à sexualização. Nesse sentido, Preciado argumenta que o gênero não  
pode ser compreendido apenas como performance, uma vez que envolve uma  
complexidade mais ampla de dispositivos e construções.  
No contexto do boys love e, de modo particular, em Cherry Magic! , a noção de  
contrassexualidade se manifesta na medida em que as categorias tradicionais de  
gênero se tornam difusas. Nesse tipo de narrativa, a ideia de gênero performativo se  
dilui em meio às múltiplas camadas que estruturam o BL. Se, como propõe Preciado  
(2022), todos os corpos podem acessar diferentes práticas significantes e posições de  
enunciação, torna-se coerente pensar que, nessas obras, os personagens não  
apresentam identidades de gênero e sexualidade rigidamente definidas. Tal  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
11/13  
Artigo | Temática Livre  
interpretação dialoga com as perspectivas de Hori (2020a; 2020b), Ishida (2015) e  
Nagaike (2012). Assim, ao operarem como construções próprias, os protagonistas de  
narrativas BL acabam por constituir realidades que refletem, em grande medida, o  
imaginário e as projeções do público consumidor, especialmente das fujoshi.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Esta análise evidencia a presença de traços convencionalmente associados ao  
masculino na construção do personagem seme, Kurosawa, bem como de características  
tradicionalmente vinculadas ao feminino na representação do uke, Adachi, em Cherry  
Magic!. Tal constatação se mantém mesmo diante de perspectivas como a de Nagaike  
(2012), que argumenta que, nas narrativas de boys love, os personagens tenderiam a se  
desvincular de categorias de gênero fixas, não se enquadrando estritamente como  
masculinos ou femininos.  
Ainda assim, a interpretação das questões de gênero nesse contexto revela-se  
altamente complexa e longe de consensos teóricos. Diferentes autores apresentam  
leituras divergentes, frequentemente influenciadas por especificidades culturais.  
Nesse sentido, estudiosos como Nagaike (2012) e Hori (2020a; 2020b) sugerem que os  
arquétipos de seme e uke podem estar relacionados a formas particulares de expressão  
da sexualidade feminina no Japão. A partir dessas discussões, o presente trabalho  
possibilitou uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas de gênero no boys  
love, considerando tanto sua origem no mangá quanto sua adaptação para o meio  
audiovisual.  
REFERÊNCIAS  
BAUDINETTE, Thomas. Japanese gay men’s attitudes towards “gay manga” and the  
problem of genre. East Asian journal of popular culture. v. 3, n. 1, p. 5972, 2017.  
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 16. ed.  
Civilização brasileira: Rio de Janeiro, 2018. E-book.  
CHERRY MAGIC!, Thirty years of virginity can make you a wizard?!. Direção:  
Kazama Hiroki. TV Tokyo, 2020. Série exibida pela Crunchyroll. Disponível em:  
of virginitycan-make-you-a-wizard. Acesso em: 30 mar. 2026.  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
12/13  
Artigo | Temática Livre  
GALBRAITH, Patrick W. Fujoshi: Fantasy play and transgressive intimacy among  
“Rotten Girls” in contemporary Japan. Signs. v. 37, n. 1, p. 211232, 2011. Disponível  
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas  
S.A., 2008.  
HORI, Akiko. ポルノとBL: フェミニズムによるポルノ批判から [Poruno to BL:  
feminizumu ni yoru poruno hihan kara]. In. HORI, Akiko; MORI, Naoko (eds.). BLの教科  
[BL no Kyōkasho]. Tóquio: Yuhikaku, 2020a.  
HORI, Akiko. 社会問題化する BL: 性表現と性の二重基準 [Shakai mondaika suru BL: sei  
hyōgen to sei no nijūkijun]. In. HORI, Akiko; MORI, Naoko (eds.). BLの教科書 [BL no  
Kyōkasho]. Tóquio: Yuhikaku, 2020b.  
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. 2. ed. Florianópolis: Editora UFSC,  
2013.  
ISHIDA, Hitoshi. Representational appropriation and the autonomy of desire in  
yaoi/BL. In. McLELLAND, Mark et al. (eds.). Boys love manga and beyond: history,  
culture, and community in Japan. Jackson: University Press of Mississippi, 2015.  
ITO, Kinko. Manga in Japanese history. In. MacWILLIAMS, Mark W. (ed.). Japanese  
visual culture: explorations in the world of manga and anime. Armonk: M.E. Sharpe,  
Inc., 2008.  
IWABUCHI, Koichi. Recentering globalization: Popular culture and Japanese  
transnationalism. Durham: Duke University Press, 2002.  
JIRATTIKORN, Amporn. Between ironic pleasure and exotic nostalgia: audience  
reception of Thai television dramas among youth in China. Asian journal of  
communication, v. 31, n. 2, p. 124-143, mar. 2021.  
McLELLAND, Mark J. Male homosexuality in modern Japan: cultural myths and  
social realities. Richmond, Surrey: Curzon Press, 2000.  
McLELLAND, Mark et al. (eds.). Boys love manga and beyond: History, culture, and  
community in Japan. Jackson: University Press of Mississippi, 2015.  
MIZOGUCHI, Akiko. What message does this film deliver to queer kids?: Rethinking  
the critical criteria for live-action BL and GL films. Studies of media, body, and image.  
n. 14, p. 21-48, mar. 2024.  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás  
13/13  
Artigo | Temática Livre  
MULVEY, Laura. Prazer visual e cinema narrativo. Trad. João Luiz Vieira. In. XAVIER,  
Ismail. A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.  
NAGAIKE, Kazumi. Fantasies of cross-dressing: Japanese women write male-male  
erotica. Leiden/Boston: Brill, 2012.  
ŌTA, Tōru. Producing (post-)trendy Japanese TV dramas. In. IWABUCHI, Koichi  
(ed.). Feeling Asian modernities: Transnational consumption of Japanese TV dramas.  
Hong Kong: Hong Kong University Press, 2004.  
PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade  
sexual. Trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.  
TOYOTA, Yuu. 30歳まで童貞だと魔法使いになれるらしい [30-sai made dōteida to  
mahōtsukai ni narerurashī]. Tóquio: Square Enix, n. 1-5, 2018.  
TOYOTA, Yuu. Cherry Magic. Trad. Cristina Mayumi Maki. São Paulo: JBC, n. 1-5,  
2024.  
WELKER, James. A brief history of shōnen’ai, yaoi and boys love. In. McLELLAND,  
Mark et al. (ed.). Boys love manga and beyond: history, culture, and community in  
Japan. Jackson: University Press of Mississippi, 2015.  
WELKER, James. Queer transfigurations: boys love media in Asia. Honolulu:  
University of  
Hawai’i Press, 2022.  
ZHANG, Charlie Yi; DEDMAN, Adam K. Hyperreal homoerotic love in a  
monarchized military conjuncture: a situated view of the Thai boys’ love industry.  
Feminist media studies. v. 21, n. 6, p. 1039-1043, ago. 20  
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás